Katatsumori, de Naomi Kawase

por Ursula Rösele

Continuando em uma aparente sequência de momentos próprios de sua vida e suas descobertas com a câmera, Kawase se dedica inteiramente à sua avó em Katatsumori. Uma pequena ligação entre a questão deixada em seu filme anterior (Abraçando) aparece somente no início, com uma carta de sua mãe lhe pedindo que cuide do pai. Deste momento em diante, caminhamos com Kawase novamente por suas contemplações e um carinho imenso pela avó, que faz lembrar bonitos curtas brasileiros contemporâneos, como DiverGrandpa de Igor Amin e Saba, de  Gregório Graziosi e Thereza Menezes.

Kawase parece elevar ao extremo o Cinema como o lugar da observação, de uma câmera que funciona literalmente como o reflexo do que seus olhos buscam encontrar e retratar. Katatsumori já traz elementos que viriam a compor seu cinema posteriormente, em registros metafóricos da natureza como componentes do estado emocional de Kawase e daqueles que ela filma. A avó aparece em “grandes closes” – na tradução das palavras de Kawase, ao menos – e pede algumas vezes que a neta pare de filmá-la o tempo inteiro, com comentários como “esta menina filma tudo, só isso que ela sabe fazer”. O cinema, de fato, parece refletir essa sua necessidade de transpor um olhar angustiado para outros lugares em que a beleza se torna possível.

Mais uma vez a jovem Kawase impressiona com a delicadeza e carinho de seus registros, como em um momento em que suas mãos tocam a janela e do lado de fora vemos a avó cuidar do jardim de ervillhas. Suas mãos acariciam a avó de longe, para depois ir buscar este carinho defronte a ela, que se mostra visivelmente tímida com a atitude da neta. Lá na frente, em Nanayo, a protagonista de Kawase iria mencionar o fato dos japoneses não terem muito calor humano, numa cultura que é pacífica e repleta de tradições, e o cinema talvez seja este lugar do carinho e do toque possível.

Esta cena da janela também traz à lembrança um momento da francesa Agnès Varda em Os catadores e eu – dois anos depois, filme de 2002 em que ela se utiliza de estratégia semelhante, ao comentar a imponências dos caminhões na estrada e, com sua pequena câmera digital, filmar o reflexo de um caminhão no espelho lateral do carro e brincar de “envolvê-lo” com as mãos. As duas cineastas, aliás, dialogam bastante, uma vez que fazem filmes com um olhar muito próprio, de muita singeleza e curiosidade incansável com a câmera e as potencialidades da imagem. Nesses dois primeiros filmes de Kawase, ela caminha para todo lugar com sua câmera 8mm (com imagens posteriormente convertidas para 16mm), da mesma forma que Varda o faz com uma câmera digital.

São cinemas que dialogam e também se diferem. Mas deixam essa sensação agradável e ao mesmo tempo melancólica de que a arte é certamente um belo lugar para aqueles que sabem o que fazer com ela.

*Visto no Indie 2009.

Filmes Citados:
Katatsumori (idem, 1994/Naomi Kawase)
Abraçando (Ni Tsutsumarete, 1992/Naomi Kawase)
DiverGrandpa (idem, 2008/Igor Amin)
Saba (idem, 2006/Gregório Graziosi e Thereza Menezes)
Os Catadores e Eu – dois anos depois (Les glaneurs et la glaneuse... deux ans après, 2002/Agnès Varda)

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