
por Ursula Rösele
Uma boa maneira de começar esta retrospectiva pelo cinema de Naomi Kawase é pelos seus dois primeiros filmes. A afirmação soa um tanto óbvia, mas após ter assistido a Abraçando e Katatsumori vivi uma experiência muito agradável ao ver seu penúltimo filme, Nanayo. Curioso como até as pequenas coisas incômodas de sua primeira tentativa de cinema fizeram muito mais sentido. Estava sendo traçado ali não somente um desejo de expressão voltado para o “eu”, para uma espécie de escape de uma angústia constante, mas um olhar para o mundo que consegue mesclar a doçura, o abandono, a inocência e a compreensão da dor que inevitavelmente faz parte da vida.
Sua forte ligação com a cultura nipônica já abre a primeira sequência de Abraçando, em que temos um off de sua avó conversando sobre seu passado, o abandono do pai e da mãe de Kawase - com a qual ela nunca conviveu-, além de imagens aleatórias de diversos objetos do Japão: lustres típicos, os clássicos hashis, a cumbuca usada para comer, a mesa baixa e por aí vai. Em nenhum momento do filme os depoimentos da avó acerca do passado de Kawase são filmados, apenas sua voz e sequências diversas de imagens que parecem conter em si essa necessidade de expressão de um mundo não necessariamente ideal, mas de um olhar para um mundo que é próprio, que viu no cinema a possibilidade de divagar, contemplar e fazer inclusive da dor um processo de beleza plástica que nos faça pensar.
Quando fez este filme, Kawase tinha apenas 23 anos e ali podemos ver diversos elementos de sua juventude, da descoberta do aparato fílmico e a curiosidade inabalável dos jovens. Sua avó é a protagonista preferida e extremamente paciente com os processos da neta, que faz toda sorte de tentativas com a imagem, suas mãos, sombra, reflexo no espelho. Sua avó sorri para a câmera, canta (único momento em que a imagem se refere ao áudio que ouvimos) e responde a todas as angustiadas perguntas de Kawase a respeito dos pais com paciência e sinceridade. A câmera para Kawase é o lugar do autodepoimento, da entrega, do desabafo.
Em seu segundo filme vamos vir a saber de sua paixão pela fotografia e experiência com a docência nesta área. Em Abraçando Kawase faz diversas e belíssimas composições entre fotografias do passado e imagens do presente. Vai aos lugares retratados, posiciona a foto no mesmo lugar onde foi tirada e a retira deixando o vazio do espaço. Essas fotografias representam esse passado idealizado por Kawase e o cinema é o denunciador da ausência que elas deixaram no presente. Além desses momentos, Kawase utiliza-se de fotografias na busca pelo pai. Ao invés de aparecer caminhando em direção aos endereços que seu pai viveu, vemos fotografias da diretora parada nas escadas, contemplando os fracassos da busca em cada endereço que visita
Há também alguns momentos de uma aparente autoimportância excessiva, exacerbação de seu “eu”, como se suas questões tivessem uma dimensão enorme para o exterior de seu universo; algo que senti ao ver 33, de Kiko Goifman. Porém, é forte o sentimento de que existe um algo a mais ali, um desejo de expressão, de urgência, de colocar seu olhar nas coisas e transformá-lo em além. Afinal, Kawase tinha 10 anos a menos que Goifman e não se furtou da expressão intensa, de colocar-se totalmente a mercê de quem acompanharia com ela seus passos. Não há como ignorar o belíssimo, efêmero e último plano do filme em que vemos finalmente seu pai olhando para a câmera daquela que para ele, até aquele momento, não passava apenas de um nome.
*Visto no Indie 2009.
Filmes Citados:
33 (idem, 2004/Kiko Goifman)
Abraçando (Ni Tsutsumarete, 1992/Naomi Kawase)