

por Marcelo Miranda
O que pensar de um filme como Tirador, em que o elemento “cinema” parece válvula de escape a um vômito de elementos do mal que fazem parte da paisagem de uma única realidade? Fala-se muito em “representação” no cinema, e Tirador talvez seja um tipo de ápice do que significa colocar um mundo real na tela. Brillante Mendoza busca muito mais que choque, asco, incômodo ou qualquer substantivo agregado a um trabalho que escancara a brutalidade e a falta de perspectivas. Mendoza extrapola a capacidade que a própria imagem tem de representar qualquer outro elemento senão o cinético. Tirador é basicamente um filme de “tempos vivos”, em que a mistura de virtuosismo, sensacionalismo e urgência se faz presente e nos catapulta a um universo fora da tela. Sem espaço para envolvimentos com personagens, é a imagem que nos envolve, tira o fôlego, suga as energias e depois cospe de volta na nossa cara. Isso pode ser bom para uns, péssimo para outros. Mas jamais será banal ou indiferente.
Tirador tem uma quantidade impressionante de coisas acontecendo para um filme de apenas 86 minutos. Tudo o que caracteriza o subdesenvolvimento num país de Terceiro Mundo ganha espaço: corrupção política, policial e religiosa, prostituição, contrabando, uso de drogas, infância perdida, calor, assalto, tortura, miséria, sujeira, fome, violência, intolerância, ignorância e uma dentadura no esgoto. O filme se torna um autêntico liquidificador, e a segurança do espectador dentro da sala escura é suspensa por conta da carga hiperativa de situações lançadas na tela. O sentido apocalíptico de uma realidade cotidiana em Manila (o filme se ambienta nas favelas de Quiapo, na capital filipina) é capaz de gerar as mais variadas reações do lado de fora, e Mendoza não demonstra qualquer tipo de preocupação ou concessão para que isso deixe de acontecer.
Muito pelo contrário. Falar em sensacionalismo não seria exagero – e é tão verdadeiro, legítimo e mesmo político quanto apontar esse sensacionalismo como a essencialidade mais básica (primitiva, até) do que seja Tirador. Na verdade, a escolha estética de Mendoza é a da não-estética, dos não-planos e das não-cenas. Inexistem construções espaciais, posicionamento de ângulo ou quaisquer técnicas que comumente são “exigidas” de uma obra de cinema. Tem-se, de fato, a câmera carregada para todo o lado, um bando de pessoas sendo registradas em situações previamente armadas e filmadas como se essa mesma câmera fosse uma das pessoas.
Há diferença abissal entre a retratação de alguma realidade que dizemos conhecer por filtros de noticiários ou de cineastas oportunistas (Cidade de Deus ou Quem Quer ser um Milionário?, filmes passíveis de dialogar com Tirador, vêm logo à cabeça) e a exposição da realidade como ela mesma parece ser ali, na linha de frente; é a oposição entre montar um mundo cenograficamente e estar dentro desse mundo sem qualquer maquiagem. Longe de querer comparar determinado filme a outro, o que se diz aqui é o fato de que, em Tirador, Mendoza não monta cenários para filmar. Ele filma o que está na frente (e como ele enxerga aquilo que escolhe filmar), fazendo da ficção ponte para o registro puro e direto. Não que Tirador seja “realista” no sentido de se vincular a um método ou artifício de registro. É uma experiência “testemunhal”, na medida em que a encenação não mascara o universo retratado. Ela pode construí-lo através da imagem, mas isso só será feito porque, antes do registro, esse universo estava lá, esperando o olhar específico de quem se dispusesse a “terceirizá-lo” para outros olhos sem, com isso, recriá-lo ou adequá-lo a esse olhar.
É um tipo de proposta na qual a noção de denúncia está presente (e é a razão de existir do filme), mas o que a torna cinema é a crença de que a câmera pode captar a efervescência de uma pobreza inclassificável. Se algumas cenas são trabalhadas para provocar asco a fórceps (a dentadura no esgoto, a tortura na polícia, o bebê que come os excrementos) ou mesmo uma certa ingenuidade rondando o conjunto (a eleição propriamente dita exibe o dinheiro – filmado em close – sendo entregue na mão dos eleitores), o “discurso” é de que tudo, absolutamente tudo, precisa ser mostrado tal como o cineasta enxerga. As manifestações religiosas, por exemplo, têm aquele tom espetaculoso de que a salvação está num determinado espaço e numa determinada crença, em contraponto às corridas dos batedores de carteira pelas ruas, filmadas como se não existisse outra opção senão também correr atrás do ladrão. A proposta de fazer do espectador se sentir uma gota do suor escorrido no calor de Manila se explicita quanto menos Mendoza condena ou “metaforiza” seus personagens. Eles são o que são e estão onde estão, nada muito além disso.
Tirador (Slingshot, 2007 / Brillante Mendoza)
Quem Quer ser um Milionário? (Who Wants to Be a Millionaire?, 2008 / Danny Boyle)Cidade de Deus (2002 / Fernando Meirelles)