Quanto dura o amor?, de Roberto Moreira

por Leonardo Amaral

O filme lança a pergunta de quanto vale o amor. O cinema não necessita dar respostas, muitas vezes ele lança perguntas e essas são, em tese, a construção e constituição de uma obra. Não há modelos pré-concebidos e o principal objeto de um projeto cinematográfico é o próprio mundo. O longa de Roberto Moreira propõe uma questão: nos primeiros planos do carro de Marina - que, após se despedir do namorado Caio, viaja para São Paulo em busca de um papel na peça “Tio Vânia”, de Tchekov - , temos uma suposta imersão no universo desse personagem ávido e aberto a descobertas na grande cidade. Para tentar dar uma resposta, Moreira se baseia inteiramente no roteiro, cheio de chaves e falhas: a imagem se perde na palavra, que se perde em meio a um sem-número de situações que não se sustentam em tela. Há um certo cinema brasileiro desses últimos anos que tenta se construir numa realidade contemporânea, fragmentada e fragmentária, mas que é tão inverossímil, tão porcamente construída e embasada, que a impressão que se tem é de que o filme já nasce morto e os sentimentos dos personagens são tão rasteiros, boçais, desinteressantes, que a única reação plausível talvez seja o deboche.

“Em São Paulo, tudo acontece muito rápido”, diz Marina ao namorado, após traí-lo com Justine, cantora de uma casa noturna administrada pelo seu marido. Não só na capital paulista as coisas ocorrem rapidamente, como também dentro de Quanto vale o amor?. Não há tempo para que nada ganhe qualquer profundidade na tela, vemos meros robôs que se relacionam. As cenas de sexo são tão esquemáticas, robotizadas e apressadas que nada ali efetivamente se vê, não há um único respingo de erotismo ou sentimento, é tudo uma peça rasa de um quebra-cabeça bisonho de personagens chatíssimos que não têm qualquer relevância, seja em relação ao mundo em que vivem (esse mundo que teoricamente queria se apresentar como perdido em sentimentos), seja cinematograficamente (a câmera se concentra em um diálogo, mas ele é tão sem importância, tão banal, que a câmera se mexe de um lado para o outro, movimento esse que diz menos ainda que os personagens que ali estão encenando).

Marina chega a São Paulo e vai morar no apartamento da amiga Susana. Lá encontra Jay Machado, supostamente escritor, mas não faz sentido algum que o seja, dada a maneira como enxerga a vida e como é construído pela “mise-en-scène” fajuta de Quanto vale o amor?. Junto com o advogado, namorado de Susana, talvez sejam as partes mais insensíveis, mal-colocadas e preconceituosas em tela. É impossível acreditar nesses personagens. Susana é transexual e não sabe como contar ao namorado. Jay tem um relacionamento com uma prostituta e com ela quer ficar. À medida que essas histórias caminham, não há qualquer ambiguidade ou humanidade nessa construção de personagens. São fragmentos desnecessários dentro de um universo que não faz qualquer sentido.

Fora as obviedades dos destinos, há sempre uma opção pelo mais constrangedor. Uma cena já mostra o quanto isso pode chegar a uma visão preconceituosa e idiota: após sabermos que Susane passou por uma cirurgia para mudança de sexo, Moreira coloca a personagem de frente ao espelho a observar fotos antigas, da época da infância como homem. Após vê-las, ela se levanta e vemos um nu frontal. A forma como é realizada subentende um ser “diferente”, que precisa ser mostrado, algo que ofende e agride o expectador que se tortura na cadeira do cinema. Se o filme teme as cenas de sexo, aqui não se poupa de ser o constrangimento em cena: o longa em nenhum momento reconhece seus personagens como seres humanos, são protótipos em meio ao caos urbano que a câmera não se cansa de mostrar.

A cada plano, o público é ofendido um pouco mais. Artifícios capengas e sem necessidade alguma que não seja a de vender um filme abaixo do medíocre. O monólogo final do texto de Tchekov mostra que o dramaturgo russo tem lugares bem melhores no cinema (vide Moscou, de Eduardo Coutinho). Os planos da cidade de São Paulo tão porcamente filmados só me fazem amar ainda mais filmes como São Paulo S/A e Alma Corsária.

Filmes Citados:
Quanto vale o amor? (idem, 2009 – Roberto Moreira)
Moscou (idem, 2009 – Eduardo Coutinho)
São Paulo S/A (idem, 1965 – Luiz Sérgio Person)
Alma Corsária (idem, 1993 – Carlos Reichenbach)

Leia novidades instantâneas em nossoblog.