No Meu Lugar, de Eduardo Valente

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por Marcelo Miranda

Originalmente, o título original deste primeiro longa de Eduardo Valente era Vórtice. Pelo dicionário, “turbilhão”, “redemoinho”, “tufão”. As acepções são bastante pertinentes ao encadeamento narrativo e estético do que acabou sendo intitulado No Meu Lugar. Talvez Vórtice fosse até mesmo mais adequado, pois a casa central onde ocorre a ação que vai gerar os conflitos do enredo é um micro-universo que suga os personagens durante toda a duração. É naquele espaço onde o filme se abre, e cada passo de quem surge em cena irá convergir para a mesma casa. Muito mais do que qualquer tipo de determinismo, o que se vê é um buraco negro sem muitas possibilidades de saída, restando ao espectador perscrutar os episódios delineados a partir daquele vórtice.

Realmente No Meu Lugar enquadra-se num certo tipo de narrativa contemporânea bastante em voga: a do chamado filme-mosaico ou multiplot. Ações paralelas ocorrem a todo momento, em tempos distintos e alguns espaços em comum. Os riscos desta narrativa é a de que as ações se desencadeiem sempre a favor de determinado rumo, em vez de se movimentarem contra esse rumo. Em suma, há uma imensa diferença entre um Robert Altman e um Paul Thomas Anderson para um Paul Haggis ou um Alejandro González Iñarritu: goste-se mais ou menos das propostas de cada cineasta e da forma como eles as desenvolvem, fato é que os dois primeiros tentam colocar seus personagens em conflitos periféricos cujo eixo central está presente, mas nunca toma totalmente o espaço da tela; nos dois outros, acontece o inverso, e o espaço da tela é invadido pela obsessão em sempre trazer de volta o eixo central.

No Meu Lugar estaria mais próximo do primeiro caso – deixando explícitas, aqui, as diferenças de projeto, intenção, pulsão e escolhas de Valente em relação a Altman ou Anderson. A semelhança, afinal, está quase única e simplesmente no tratamento do vórtice, naquele ponto de intersecção que faz o tal multiplot se cruzar em algum momento. Anderson e Altman trabalham ações paralelas sem um acontecimento específico a moldá-las, enquanto Valente tem um centro nervoso em seu filme, e este centro será propulsor da movimentação dos personagens em cena, imperceptivelmente levando-os cada vez mais perto do ápice narrativo. O filme começa e termina na mesma cena, mas só nos é dado o direito de ouvir o momento-chave. Por toda a carga de violência e tragédia ali contida, Valente prefere reservar apenas aos protagonistas a dor sofrida. A nós, espectadores, são oferecidas as conseqüências, no caso de duas das três narrativas, e as pré-conseqüências, no caso da outra (falar em “causa”, aqui, seria diminuir No Meu Lugar a um filme de tese, algo que ele está longe de ser).

O desencadeador do multiplot de Eduardo Valente é um tiro. Curiosa coincidência ser este também o motivador de Babel, justamente de Alejandro González Iñarritu. Os dois se apresentam esteticamente como o que se pode chamar de world cinema (expressão lembrada pelo editor deste site, Rafael Ciccarini): filmes que trabalham elementos característicos de seus países de origem sem com isso “localizar-se” como produtos unicamente destes países, permitindo que funcionem para platéias de qualquer parte do mundo (um exemplo típico de world cinema brasileiro no ano passado foi Linha de Passe, da dupla Walter Salles e Daniela Thomas). Não à toa, tanto Babel como Linha de Passe passaram pelo Festival de Cannes, o espaço-mor da cinefilia mundial. E para além disso, No Meu Lugar é produzido pela Videofilmes, empresa de Walter Salles, o nome maior do nosso world cinema desde Terra Estrangeira.

Voltando à relação Babel-No Meu Lugar, comparar o uso do tiro, neste caso, torna-se pertinente para pensarmos na utilização que cada cineasta dá aos desdobramentos narrativos. Iñarritu trabalha na chave do “efeito borboleta”, em que uma ação supostamente isolada pode causar um cataclisma em cantos extremos do planeta. No mundo de Iñarritu, a bala que atinge a personagem de Cate Blanchett provoca tremores em diversos núcleos, mas nunca deixará de ser uma questão: uma bala foi disparada, e pessoas sofrerão por causa disso, pagando caro pelo envolvimento no imbróglio.

A diferença com Valente é gritante: o tiro que mata é capaz de traumatizar a quem sobrevive, mas não gera castigos divinos. Se alguém sofre, sofre porque tem auto-consciência do que fez, e não porque o universo conspirou contrariamente. O policial se torna um zumbi consigo mesmo pelas próprias ações, sem esperar que alguém venha em seu socorro ou lhe prove alguma falsa inocência; a viúva não lamenta simplesmente a morte do marido, mas o constrangimento perante a família por ter de rememorar o próprio sofrimento; o entregador de supermercado não é movido invisivelmente pela sociedade como algum boneco de ventríloquo, mas é alguém cujas escolhas pessoais vão fazer diferença na sua vida e na dos outros. Os personagens criados por Eduardo Valente e pelo roteirista Felipe Bragança têm vida para além do tiro, sem que, por isso, o estopim narrativo precise ser ignorado ou reforçado.

Por ser um filme claramente pensado a partir de um roteiro elaboradíssimo, alguns caminhos específicos fazem divergir o frescor sentido no todo. Elementos que servem para localizar o espectador num mesmo espaço (o filtro de água sendo utilizado por dois personagens em tempos diferentes; a garrafa de bebida embaixo da cama) parecem discretamente chamar para si o tal cuidado extremo com a narrativa. A “necessidade” dos caminhos convergirem no mesmo lugar provoca algumas rachaduras que afastam o espectador até então encantado com as figuras quase palpáveis emanando da tela. Valente é carinhoso com todos surgidos em cena e trata cada um como seres ímpares dentro de uma cadeia de eventos à qual eles não controlam. Por isso mesmo, quando sentimos determinada nota colocada unicamente para fechar o ciclo iniciado na abertura, há um afastamento por parte do espectador, imediatamente relembrado de que está, afinal, assistindo a uma história cujo desfecho foi definido desde o primeiro plano.

O interesse de Eduardo Valente jamais é forçar os personagens a chegar ao fim de suas jornadas – pois seu interesse genuíno, e o melhor trabalhado pelo filme, é refletir sobre um “antes” e um “depois”, buscando nos bastidores de um evento nunca mostrado explicitamente o máximo possível de humanidade. Não se pode ignorar, porém, que a escolha pelo mosaico – ou talvez devamos falar na necessidade dessa escolha – obriga o próprio filme a girar em torno de si mesmo e se fechar. Há algo de relativização e mesmo subversão desse tipo de narrativa na forma como vai surgindo pelas lentes do diretor, mas a “revolução” fica abafada na vontade maior de estar junto com os personagens. Curiosamente, é neste “estar junto” em que o filme se torna objeto imbuído de grande força.

Irônica dicotomia: No Meu Lugar depende da engrenagem básica do multiplot e faz uso dela até o limite de suas funcionalidades mais “saudáveis” (sendo um dos usos mais brilhantes os sons de uma narrativa invadindo a outra em tempo e espaço diferentes); e sempre que a engrenagem vem à tona mais claramente, o impacto é diminuído. O vórtice que permeia No Meu Lugar, portanto, é uma liberdade aprisionada – ou um aprisionamento libertário, como se preferir.

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Filmes Citados:
No Meu Lugar (Eduardo Valente/ 2009)
Linha de Passe (Walter Salles e Daniela Thomas/ 2008)
Babel (Alejandro González Iñarritu/ 2006)
Terra Estrangeira (Walter Salles/ 1995)

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