Gigante, de Adrian Biniez

por Leonardo Amaral

Fritz Lang, em Os mil olhos de Dr. Mabuse, mostrou a imagem implicada na vigilância das pessoas. O homem que, panopticamente, observa e é observado, um contato que se completa imageticamente, a ponto de nunca se saber se é ou não verdadeiro. Adrian Biniez recorre a essa mesma imagem-vigilância para construir uma espécie de comédia-romântica-minimalista em Gigante. Ator em Whisky, de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, Biniez vai buscar na rigidez do quadro e na monotonia do cotidiano a construção da relação mediada entre Jara, um glutão fã de heavy metal e que trabalha em dois empregos (vigia do sistema de vídeo-segurança de um supermercado e staff em uma boite noturna) e Julia, faxineira do mesmo supermercado que nas horas vagas escuta rock pesado ou vai a uma praia poluída de Montevidéu.

Assim como em Whisky, a força de Gigante está no enquadramento e na sua duração. O diretor argentino explora ao máximo as situações cotidianas para encontrar nelas o mote para o humor do filme. Jara faz exercícios físicos ao som de uma banda de metal, e a mesma música acompanha seu banho ou o caminho para o trabalho no supermercado. Nas câmeras de segurança, os movimentos quase rituais da limpeza ou de conferir os produtos do estabelecimento. No entanto, Biniez se propõe a encontrar o extra-ordinário dentro desse universo ritmado do dia-a-dia. Não por menos, vai mostrar nessas mesmas câmeras os funcionários que aproveitam os momentos em que estão a sós para brincar de atirar vegetais um no outro. Mais uma vez voltamos ao Mabuse de Lang, uma situação privada que se torna pública. Em um mundo de imagens, o voyeurismo é uma tônica (como os funcionários que aproveitam os zooms para observar a bunda de uma atendente), como também as relações se estabelecem dessa maneira. É através de um momento flagrado que Jara se conecta a Julia, para, posteriormente, passar a segui-la pela cidade. O sentido de vida do personagem se dá pela imagem. No entanto, a cidade, de alguma maneira, devolve o contato com as pessoas. No trabalho, o gordo pouco fala, apenas vê; todavia, nas ruas é obrigado a interagir, sob o risco de perder os rastros da garota pela qual se apaixona.

E é apostando nos pequenos detalhes do banal que Biniez constrói seu filme. Jara e Julia estão na praia, sentados, de costas, em quadro fixo. Ao expectador não é permitido escutar a conversa dos dois. E eis que a composição do momento se dá com uma balada romântica cantada por uma voz rouca típica de metaleiros. Mais uma vez o extra-ordinário invade o quadro, e a grande ironia do filme é nos permitir sempre ver a imagem, mas nunca escutá-la, o som ainda está escondido. Experimentamos um cotidiano quase sempre incompleto.

Filmes Citados:
Gigante (idem, 2009 – Adrian Biniez)
Whisky (idem, 2004 – Juan Pablo Rebella & Pablo Stoll)
Os mil olhos de Doutor Mabuse (Die tausend augen des Dr Mabuse, 1960 – Fritz Lang)

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