
Em acurada crítica postada na cobertura especial do Indie, a polva Mariana Souto foi precisa: não há uma conexão direta entre as histórias dos cinco casais que freqüentam o Quarto 314, escrito e dirigido por Michael Knowles, salvo o mote de que todos eles passam por relações desgastadas e, em todas elas, a presença de um interessante exercício de câmera, que se movimenta no curto espaço oferecido pelo quarto. A porta que se fecha é a deixa para que a outra história comece. No meu caso, a porta que se abriu foi para uma relação inevitável deste longa de estréia de Knowles com um recente filme visto no próprio Usina, o chileno Na Cama, dirigido por Matías Bize e escrito por Julio Rojas. E nessa comparação, os chilenos levaram a melhor.
No filme de Bize, a story-line é muito próxima da primeira das cinco histórias de Quarto 314: um casal de desconhecidos que resolve dar uma escapada para um quarto de motel após uma festa. A diferença é que o filme de Bize faz a opção por uma longa-metragem em cima desta story-line, enquanto, como dissemos, no filme de Knowles ela é apenas a primeira de cinco histórias independentes. Aliás, informa o Indie, a primeira história - “Nick & Stacey” - foi um curta dirigido por Knowles.
Bize leva a melhor, primeiro, porque consegue sustentar o interesse na trama por quase uma hora e meia. Coisa que Knowles consegue fazer, em especial, somente na primeira e terceira histórias (nesta, aliás, o próprio diretor interpreta um vendedor). Daí vem a explicação e meu segundo critério: o texto. Dirigir uma história de tensões entre casais, em um mesmo cenário, exige uma maestria também nos diálogos – em especial, um domínio colossal da linguagem fática – aquela que, nos ensina o Aurélio, é “relativo a, ou que emprega palavras, mensagens, etc., cujo objetivo principal não é a transmissão de informações e, sim, o estímulo ou exercício da sociabilidade e da comunicação”. No ponto! Ou seja, dada a intenção dos filmes, o diálogo deve demonstrar, acima de tudo, esse exercício de sociabilidade de forma bem natural, sem formalismos na linguagem ou diálogos rebuscados. Mas suponho que o detalhe precioso é que, afinal, estamos diante de um filme, então nada é simples assim: indiretamente, mesmo o emprego desses termos usuais deve ainda se manter no contexto da história e, ao mesmo tempo, orquestrados e trabalhados para que transmitam informações sobre os personagens (quem são, o que pensam...). Nada fácil, especialmente quando, sabiamente, ambos dispensam aquele off no estilo “pensar alto para o público espectador” – a solução mais fácil, mas também mais ridícula para ambos.
E é aqui que avançamos no ponto de divergência entre os filmes: Bize equilibra melhor essa transmissão de informação sobre os personagens não só com um bom uso da fática, mas também recorrendo a elementos disponíveis no micro-universo de filmagem – uma foto, uma música, um telefonema. Knowles ousa: praticamente não recorre a esses elementos. Quarto 314 investe, em peso, nos diálogos – e por isso, creio, tem momentos que o filme não agüenta segurar esse fardo e perde o timing, como na história do último casal do filme. Em compensação, o filme de Knowles brilha mesmo no domínio da câmera, como já citado aqui e por Mariana. Nesse campo ele vence a batalha do Chile, já que Bize opta, muitas vezes, pela estática – o que não compromete, evidentemente, as qualidades anteriormente apontadas em Na Cama.
Depois das divergências, encerro voltando a uma outra rápida convergência entre os filmes: produzidos quase que no mesmo ano, mas em partes distintas do continente, ambos são sintomas e, ao mesmo tempo, excelentes exemplos crônicos (em todos os sentidos que este termo permite) dos relacionamentos contemporâneos, em especial no que tange a esse curioso paradoxo de intensidade na fugacidade amorosa.
Filmes citados
Na Cama (En la cama, 2005/dirigido por Matías Bize)
Quarto 314 (Room 314, 2006/dirigido por Michael Knowles)