CURTAS - Série 7

 

 

 

por Gabriel Martins

 

Nego Fugido

 

Nego Fugido é um curta-metragem no mínimo desconcertante. O filme parece afrontar uma idéia de metalinguagem fácil, de pensamentos rasteiros acerca do registro – tão comuns no nosso tempo -, mirando uma subversão poética que traz o sentido da imagem para um local que, ao que parece, ainda nos é bem desconhecido. Está aí uma dificuldade enorme em analisar este filme: todas as possibilidades de resposta são falhas, inexatas, insuficientes. Este filme pede um olhar maduro. O registro em baixa resolução se confunde com o registro em alta, os atores que traduzem musicalmente uma representação cultural chegam, no confronto real, a demonstrar constrangimento. O cinema está na música tocada por eles, que toma o filme, se torna maior e declara uma postura diante daquelas imagens. As questões de falso ou verdadeiro, real ou ficcional, parecem ser um discurso superado dentro de Nego Fugido. O que existe ali são imagens conversando com imagens, reações se contradizendo, teatro sendo cinema, filme de terror, tudo com um cuidado e maturidade impressionantes.


*Visto na 4ª CineOP.

 

Aos Pedaços 
 

A narrativa em off tem um grande perigo de forçar um entrosamento com o espectador que, se não segue uma mesma tonalidade e proposta imageticamente, menos envolve e mais distrai. Em Aos Pedaços existe uma idéia do fragmento, do filme por trás do filme que nem sempre é realmente interessante. Há ali um espaço documental curioso sendo traçado, o personagem/diretor analisando o percurso do filme com o percurso da vida – e só quem já teve a experiência de realizar algum projeto sabe como realmente o cinema interfere na nossa vida no momento de realização. Mas, no todo, há um poetização arriscada que, se não pega o espectador em um primeiro momento, dificilmente o abarca em sua continuidade. É 8 ou 80 - para mim, algo mais próximo da primeira opção.

*Visto na 4ª CineOP.

 

A mulher biônica

 

Ao mesmo tempo em que possui atuações em alguns momentos mais forçada, é interessante ver a presença de cinema em A Mulher Biônica, um filme bem esquisito. Esquisito porque por ora é bastante narrativo, propõe um continuidade de ações, por outra é um filme pontual, de seqüências mais fortes e quase ensaísticas – sendo a das três mulheres na cozinha uma das mais fortes. Fala-se sobre uma mulher que pode ser frágil, que tem suas falhas, mas que se recupera, que também briga; uma mulher ambígua e humana, obviamente nada biônica – título ironia que se refere a um filme exibido dentro do filme. Um filme diferente, que traz uma impressão de ser apenas um trecho de uma longa história – algo que normalmente é negativo, mas que, aqui, traz um efeito positivo e bastante peculiar.

 

Nº 27

 

Notas rápidas sobre Nº 27, revisto na Cine OP: 

 

- Quem se mela, na verdade, é o espectador. Em poucos momentos é possível entrar tanto na pele de um personagem. Tudo isso por causa de um belo uso do extra-campo: ouvimos sempre um som vindo de fora, os outros personagens reagindo de fora para o nosso personagem de dentro. A pressão fica sempre à nossa volta.

 

- No segundo bloco, ele com os pais, novamente o extra-campo age. Ninguém ali, seja professor, pai ou mãe, sabe traduzir ou entender a vergonha - só ele e nós.

 

- Belíssima câmera lenta. O garoto some no meio de uma multidão, um outro garoto passa com a camisa melada, uma garota se solidariza. Um plano quase Gus Van Sant, mas muito brasileiro. Ao espectador resta um silêncio tanto de constrangimento como de compartilhamento. Grande filme.

*Visto na 4ª CineOP.
Filmes Citados:

 

Nº 27*

por Marcelo Miranda

Imagine um filme de Robert Bresson em que o protagonista tem uma dor de barriga na escola, suja-se no banheiro e entra em estado de choque ao tentar evitar que seus colegas entrem a qualquer custo. Guardadas as proporções, é mais ou menos essa idéia que se sobressai neste curioso curta, em que o ascetismo da encenação, a falsa inexpressividade do ator e os longos planos o tornam um trabalho peculiar e de estética bem pensada. Lordello faz de uma situação banal (e passível de ser o pesadelo de qualquer adolescente) um exercício de linguagem e austeridade, que, mesmo com o claro rigor que emana de suas imagens, deixa transparecer certa liberdade na realização, ainda que o controle das cenas por vezes pareça sufocar a proposta.

*Visto no 41º Festival de Cinema de Brasília.

 

Nego Fugido (idem, 2009/ Cláudio Marques e Marília Hugues)

Aos Pedaços (idem, 2009/ Taciano Valério)

A Mulher Biônica (idem, 2008/ Armando Praça)

Nº 27 (idem, 2008/ Marcelo Lordello)

 

 

*Visto na 4ª CineOP.

 

Leia novidades instantâneas em nossoblog.