
por João Toledo
Resumindo de forma quase minimalista, seria possível dizer que o filme de Clarissa é algo como uma busca por uma cidade, um encontro com alguma Belo Horizonte que ela parecia não saber expressar. E é esse não-saber que a leva a sortear aleatoriamente – chame-se de sorte, acaso ou até mesmo destino, para os mais esotéricos – espaços da cidade para extrair de lá imagens que possam dizer algo sobre essa lacuna da qual ela parte. E em meio a essas imagens colhidas, nos são narradas em forma de voz ou texto algumas angústias, acontecimentos e momentos, evidenciando claramente o protagonismo da realizadora, que se apresenta objeto motivador do filme, se expõe na narrativa que cria. O que Clarissa faz é um diário, e nesse percurso ela demonstra absoluta crença na importância da subjetividade do olhar pessoal, crença numa criação sem nenhuma grande construção propositiva de sentidos ou ordenação pautada por uma lógica racional. Sob a égide da sensorialidade, Clarissa tem por matéria-prima uma cidade imaterial, que ela busca construir aos poucos no percurso que traça.
Em certos momentos, nessa busca por uma visão algo globalizante da cidade a princípio sem rosto, a edificação de um todo através do detalhe pode criar uma dialética curiosa. Para chegar ao integral, é preciso buscar no mínimo – parece propor o filme. No entanto, que “integral” é esse que vemos? Não chegamos, de fato, a cidade alguma. Uma urbe são tantas, uma para cada pessoa que se relaciona com o espaço onde vive, mas o filme não chega a nenhum desses. Pode-se dizer que se descobre (ou cria-se) uma cidade imaginária, um arremedo de espaços retalhados que formam um conjunto; talvez seja alguma cidade, mas nunca aquela na qual Clarissa acorda todos os dias. E isso nos leva a uma estranha curva narrativa que não alcança ponto algum. Não que devesse alcançar, claro, mas cria uma espécie de buraco negro para essas imagens que já não parecem remeter a nada para além de si próprias.
Diante disso, minha indagação maior seria acerca do porquê de negar a cidade que lhe é própria quando se busca a própria cidade, do porquê de buscar tão longe algo tão íntimo. E nessa busca pelo mínimo, em um filme tão pessoal, me parece fazer mais sentido uma verdadeira exposição, uma exploração do que lhe é mais seu no espaço urbano. O perigo que se corre em Notas Flanantes é o de nos encontrarmos – nós, espectadores – diante de uma idéia de cidade que nada nos diz, e que, se possivelmente diz algo à diretora, não se traduz na lógica da concatenação de dados imagéticos. Mesmo quando revela alguma potência – como em um plano de uma rua de paralelepípedos cercada de árvores frondosas onde meninos brincam –, a força parece estar antes na realidade que na imagem, na idéia de que aquele espaço existe ali independentemente do filme ou de nós, e que crianças brincam por toda parte e criam suas cidades para além daquelas arvores que fecham o plano, que todo o extra-campo é um mundo enorme e intangível. E a cidade desconhecida daquelas crianças me parece muito mais interessante do que a não-cidade do filme.
O cinema de Clarissa, que à primeira vista remete a determinadas formas de abordagem do real comuns a diversas realizações mineiras – principalmente da própria Teia, produtora da qual faz parte –, é a rigor um cinema que caminha em uma linha muito tênue, pois, já beirando certo esgotamento e esquivando-se de uma repetição constante de artifícios, necessita equilibrar-se em duas variáveis essenciais. Uma sendo um enorme talento para a construção visual, extração estética espontânea e improvisada, e a outra sendo uma absoluta sintonia com o acaso, fazendo desse encontro entre câmera e objeto algo inesperado, inimaginável. Ter em mãos os mesmos equipamentos e em mente os mesmos ideais não leva necessariamente a uma mesma qualidade de encontro com o real. No caso do filme de Clarissa, ela parece ter outra armadilha que a impede de chegar a esse encontro desejado; essa armadilha chama-se “idéia”. Presa ao motivo/motor que a levou a buscar aquelas imagens, ela segue mostrando, tentando nos levar adiante a partir de uma narrativa vaga, quase convencional e pretensamente poética que apenas nos distrai do interesse que a imagem poderia ter per si, tornando tendenciosa nossa relação com cada coisa mostrada. Clarissa subordina seu filme à realidade ao invés de subordinar a realidade a seu filme, a seu olhar para o mundo – e isso diferencia este de outros trabalhos da Teia, que se desembaraçam facilmente dessa lógica de sujeição em função de uma lógica de comunhão; é o caso do excelente curta de Helvécio Marins, Nem Marcha, Nem Chouta.
A idéia que vem antes da forma acaba tornando o filme um prisioneiro de uma trajetória labiríntica e plena de ruas sem saída, desencontrada. E a relação um tanto pálida com as condições encontradas no acaso impede qualquer transcendência a partir da imagem; a experiência fica quase sempre restrita aos limites propostos. É um filme de limites, de regras, finito.
*Visto na 4ª CineOP.
Filmes Citados:
Notas Flanantes (Idem, 2009/Clarissa Campolina)
Nem Marcha, Nem Chouta (idem, 2009/Helvécio Marins)