
por Ursula Rösele
A sessão 6 de curtas da 4ª Cineop certamente merece uma breve introdução. Sessão mais intensa da Mostra, com filmes não somente perfeitos para o Cine Vila Rica, como em uma lógica fantástica de exibição na sequência. Uma pena Andrômeda – a menina que fumava sabão (CarlosMagno) não ter finalizado sua cópia em 35mm a tempo e ter ficado de fora. Já tive o prazer de assisti-lo e fecharia de forma muito intensa a sessão. São filmes que nos convidam a um mergulho muito denso em seus universos de narrativas não convencionais e de imersão filosófica, estética e política.
Danças
Há várias danças neste filme. Da câmera, dos personagens, dos seus corpos, do espaço. Experiência muito agradável a de vê-lo em tela grande, num cinema com tanta energia favorável para o mergulho cinematográfico. O plural de seu título é também um convite (já contido em sua sinopse: “Sejam bem-vindos”) a nós. Não há lógica explicitada, não há também necessidade dela. Duas garotas, uma cidade e o bailado desses corpos em fusão com o contemporâneo, com o incongruente, com o tempo célere, com a negação do entregar-se ao insólito da rotina capitalista.
Tudo na cadência musical, no ritmo satírico, na iminência constante de um escapar da mesmice. Fazer, portanto, um musical. Ir a tempos idos para buscar em plena São Paulo esse – agradável – escape via os clássicos musicais. Na necessidade de um expressar atual, musicalizar o contemporâneo. Utilizando-se de parcelas desse clássico com o vigor da juventude contemporânea. A cidade também dança, nos travellings que acompanham as garotas, nas panorâmicas dos ternos queimando na praça, numa câmera urgente desse frescor expresso na tela.
Um constante limiar entre angústia e necessidade de fuga do enfadonho acompanha as coreografias. Na dança final, todo um preparar para o sublime, a conquista da liberdade sonhada pelo cinema. Tudo corrobora para isso, o corpo da bailarina no palco, o exclamar das cenas que se intercalam. Para, num chamado intenso à realidade, um dos planos mais belos desta mostra: o rosto do rapaz, saindo do vermelho da dança para um branco quase cru. Ele seca as lágrimas, a dança acaba, o som se esvai. A muitas vezes triste constatação de que para além do Cinema, há uma luz que se acende e um mundo cru, inexplicável, nos aguardando do lado de fora.
*Visto na 4ª CineOP.
Superbarroco: um curta que não é curto*
Para um filme: “(...) o cinema atinge sempre o seu melhor quando o homem-cineasta consegue dobrar a máquina ao seu desejo e, dessa forma, nos fazer entrar no seu sonho.” (François Truffaut)
Para o outro: “Para mim, o cinema era o mundo. Um mundo diferente do que me circundava, mas só eu conseguia vê-lo na tela, junto com a plenitude, a necessidade, a coerência, enquanto fora dela amontoavam-se elementos heterogêneos que pareciam ter sido reunidos por acaso, coisas da vida, que pareciam desprovidas de qualquer forma.” (Ítalo Calvino)
Superbarroco é, em essência, um não-ser necessário. É dois e é super. Extrapola as concepções da arte barroca, transformando-se em um filme do autista do mundo e o filme para o autista de um mundo ideal. Dito “não-ser”, pois Superbarroco não é por definição coisa alguma e abrange um todo dele mesmo e de quem o assiste. É um sonho, e nos faz entrar dentro dele.
O autista do mundo olha para ele com estranheza, caminhando como se recém-caído ali. Faz seu caminho reunindo deste mundo o que pode ir para o seu. E caminha e sobe e inicia seu projetar ao elevar-se em uma imagem de uma igreja barroca, mas não entrar nela. Sobe por ela e vai além-barroco. Nessa projeção contínua, esse autista encontra seu mundo ideal. Para ele, o cinema era o mundo.
O filme parece ser um idílio da solidão, que necessita do outro filme nele mesmo para imergir no prazer lúdico do não pertencer. Encontra nas ruínas, nos silêncios, a imagem que se funde, como se a solução para a utopia fosse o cinema no próprio cinema. Ali, como na arte barroca, estão conciliadas luzes e sombras, alegrias e tristezas, espírito e matéria. Há um corpo presente, há o corpo ausente evocado por aquele a todo tempo. Como se a saudade atingisse seu apogeu na própria representação cinematográfica.
Ali se eternizam os sentires e as vidas que se vão. Cinema é saudade em movimento, é o morto eternizado, o fotograma queimado que se repete ad infinitum sempre que assim desejarmos. O passado, quando projetado, se torna o presente no instante. O grito é sentido no canto em sopro, as palavras não têm importância, somente as imagens, os sentidos, os efeitos ilusionistas. Uma quase homenagem a Méliès, no belíssimo raccord da água do chuveiro projetada no corpo nu, para este mesmo corpo na água que escorre nele, já fundida, “posta em cena”.
A catarse final não é final para o (s) filme (s), o é para nós, meros espectadores da vida que poderia ser. No comemorar desse corpo ausente, o preparo, a maquiagem, os convidados que estão no filme-outro, este talvez ideal. Há um brinde nesse ilusionismo, pois além de dois, eles comportam o que a vida jamais conseguiria: a ambigüidade da existência e não-existência, fundidas numa mesma imagem, projetadas numa mesma tela, formando um três (os filmes e nós). Aberta a convidar todo aquele que ousar sonhar ali.
*Este filme é de Pernambuco e foi exibido na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes e 4ª Mostra de Cinema de Ouro Preto. Sem trocadilhos com o próximo asterisco, é uma pérola do curta-metragem contemporâneo e uma pena que eu não possa, neste texto, mostrá-lo a todos que o lêem. De toda forma, a quem tiver a oportunidade, não deixe de assisti-lo.
**Barroco: termo de origem espanhola ‘Barrueco’, aplicado para designar pérolas de forma irregular.
Muro
Após seu trânsito por muitas mostras e festivais, já se constatou por diversas vezes o desafio que Muro representa para aquele que pretende criticá-lo, na melhor acepção possível da palavra (belo texto de Cléber Eduardo aqui): um filme-exercício sem método aparente, dando a sensação constante de um intermitente transpor de limites não definidos. E com certeza um desafio deveras agradável, pois oferece uma sensação de inesgotável abordagem que sempre nos convida à escrita, como forma de passear com ele nesse delirante espetáculo estético-espiritual-imagético. Talvez numa possibilidade de transcendência da própria sensação errônea de que o lugar da crítica seria o de complementar a obra no sentido de esgotá-la. O diretor com as imagens, o crítico com as palavras. Ledo engano.
Eis que surge Muro: pode-se imergir num bailado de hífens sem fim. Filme-instalação-delírio, experiência-estético-onírica, cinema-político-caótico-pós-Glauber e por aí se pode perder num devaneio em instâncias quase psicotrópicas de tentativas de compreender o – ainda bem – incompreensível. Fica a agradabilíssima sensação de confrontar-se com algo que grita para nós: não, o cinema não esgotou suas possibilidades de expressão. Estamos defronte um sem-número de possibilidades de referências, para uma ideia de filme sem referência, de diretor sem sobrenome. Há ali Eisenstein, há cinema experimental, há narração clássica, há teatro, poesia e revolução. Parafraseando o já parafraseado no catálogo da 4ª Cineop, Avellar citou uma frase de Glauber que se encaixa perfeitamente aqui: “a desrazão planeja as revoluções, a razão planeja a repressão”. Seguindo nas palavras de Avellar: “Sonhava (ele se referindo a Glauber) com uma expressão absolutamente impossível de ser compreendida pela razão dominadora, a ponto de que tal razão “se negue e se devore diante de sua impossibilidade de compreender”.
Muro só delimita através do título. Internamente, não há paredes de tijolos que impeçam sua hiperimersão num universo de imagens aparentemente não conciliáveis entre si. O cinema permite o sonho mágico de Mélies. Na TV, espaço retrógrado de imagens presas a um ideário mercantil-imbecilista, os homens ainda pisam na lua. Do lado de fora, na terra, no chão seco, resta a competição sem fim. Pelo close da câmera, pelo espaço no mundo, pelo primeiro lugar. A instalação inicial já anunciando o caos. Na seca, homens de terno. Em meio à cor, o preto e branco. Competição que começa numa infância não mais ingênua para lugares inimagináveis da mente humana: “Era uma vez um homem que de tanto pensar, considerar, ponderar, caiu”.
Estamos todos, sem exceção, numa selva. O muro está lá, para lembrarmo-nos de que o construímos. Ele traz a lembrança de nossas derrotas constantes, por uma vitória impossível. Contra o tempo não há possibilidade, logo, digladia-se com o mortal, o homem, o mercado de trabalho, o status social. O Muro das Lamentações em Jerusalém permanece de pé, no aguardo da chegada do Messias. Numa terra seca, sem religião, na corrida dos homens engravatados de Muro parece haver uma única constatação: o transpor encontra-se na linguagem, no Cinema. A projeção comporta esta capacidade de transposição. Já na vida além-tela, não há Messias a chegar. Sendo o cinema uma linguagem, faça-se dela, portanto, uma linguagem política.
*Visto na 4ª CineOP.
Superbarroco*
por Marcelo Miranda
Lembranças, alucinações, surrealismo, sobreposições, tudo se mistura numa massa só neste curta alucinado e alucinante, que começa de forma tradicional e torna-se um verdadeiro sonho em forma de película. Por alguns instantes fui remetido a Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel, menos pelos desdobramentos do que pela aura de inquietude, de uma mentalidade sendo projetada na imagem, da sensação de que absolutamente qualquer coisa poderia brotar da tela. Há planos de cuidadosa plasticidade (o personagem se banhando), em que os ângulos da câmera tentam transmitir as sensações mais íntimas. Muito da força de Superbarroco deve, para além da direção de Renata Pinheiro, da entrega de Everaldo Pontes como o protagonista, um misto de insanidade e ingenuidade, uma figura que encarna a tragédia de corpo e mente mesclada à ânsia de viver a qualquer custo, venha o que vier de dentro ou fora da própria cabeça. Trabalhando o cenário com acuidade na mistura de tempos e espaços, esta pérola pernambucana já nasce como um dos trabalhos mais instigantes da nova safra de curtas brasileiros.
*Visto no 41º Festival de Cinema de Brasília.
Muro*
por Gabriel Martins
Existem certos filmes que provocam algumas reações que a um primeiro momento são indecifráveis, complexas de serem registradas em texto. Muro é um exemplo. Há ali um turbilhão de imagens carregadas de signos próprios, mas que não pretendem uma conexão e justificação conjunta em uma instância meramente narrativa. No filme, é trabalhado um significado maior do cinema que é o de ferramenta de expressão e construção, a arte que possibilita traduzir idéias e sonhos em um nível diferenciado das outras artes. E é sensacional ver um filme como Muro, que presta uma verdadeira homenagem à concepção cinematográfica e à própria noção da imagem como catalisadora de um deslumbramento com a subversão da física da vida e das coisas através da manipulação cinematográfica – sendo os recortes rápidos iniciais da corrida um contraponto ao uso de câmera lenta no final. Por isso o cinemascope como uma ferramenta não só visualmente impactante, mas representativa de um momento em que o cinema evoca para si uma atenção que estava sendo perdida para a televisão, nos anos 50. O formato, além de aproveitar a tela em toda sua extensão, satisfaz a necessidade de uma arte grande, um impacto do tamanho do cinema e que vêm de trem, lá de trás. Portanto, Muro consegue ir além de um discurso social existente em si (que é importante), para mirar um enumerado de sensações – algo como correr sem respirar – e atingir algo que é indecifrável: nossa relação de amor e inquietação com o cinema.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes Citados:
Danças (idem, 2008/Fernando Watanabe)
Superbarroco (idem, 2008/Renata Pinheiro)
Muro (idem, 2008/Tião)
Um Cão Andaluz (Um Chien Andalou, 1929/Luís Buñuel)