
por João Toledo
Dona Flor e Seus Dois Maridos é um filme curioso em muitos sentidos, e o fato de ter vindo de um dos realizadores menos interessantes do cinema feito hoje no Brasil é especialmente significativo, pois demonstra o quanto um contexto influi na realização de cineastas, inclusive no empenho criativo e cuidado com a imagem. Um filme como esse muito dificilmente seria feito nas condições de hoje, escrachado como poucos, sexualmente libertário, impudico inclusive diante da realidade que aborda, pois não enverniza sua imagem, não lustra seus objetos nem ilumina o corpo para falsear uma perfeição, não esconde a sujeira nas paredes velhas. Hoje em dia, essa sujeira foi toda varrida para debaixo da imagem, para o extra-campo talvez – não há imperfeição que as luzes do set sanitizado e os retoques plásticos de pós-produção não apaguem. Até mesmo os filmes cujo ponto de partida é a absoluta escatologia, como O Cheio do Ralo ou Ensaio Sobre a Cegueira, parecem aliviados por uma indelével sanitização estética, uma visão quase publicitária do lixo.
Nesse sentido, é gostoso retornar a esse passado, imergir nessa década de setenta tão despudorada, tão lindamente verdadeira, tão interessada em traduzir em imagem as contradições do Brasil, aquela coisa meio tosca do velório em pleno carnaval, como se não fosse possível se desvencilhar daquela realidade que contamina a ficção, que entra pela janela e invade o plano, invade o realizador, invade a coletividade e torna-se a imagem de um país. O filme tem um movimento rítmico muito interessante que me remete à realidade do cinema Brasileiro. Na primeira parte, temos o flashback dos momentos de Vadinho na vida de dona Flor; e o filme corre alucinado e muito bem humorado, completamente desinteressado por nos fazer crer que há naquele personagem qualquer valor moral com o qual possamos nos identificar – e nos apaixonamos mesmo assim com aquele vagabundo profissional. É especial vermos esse momento em flashback, pois parece que olhamos pra trás, vendo hoje o cinema brasileiro daquele tempo em que se podia falar de cinema brasileiro como algo indentitário.
Em um segundo momento, após voltarmos ao presente narrativo, temos o novo marido, farmacêutico, limpinho, sanitizado, pretensamente inteligente, e absolutamente frouxo, cujo sexo com dona Flor é algo pateticamente escondido e moralizado. O filme se torna desigual justamente nesse momento, entregue à chatice e caretice do farmacêutico auto-importante. Esse é o cinema brasileiro contemporâneo, exatamente assim, e tudo o que se pode fazer é torcer para que aconteça como no filme, um retorno de Vadinho, de algo essencial na representação visual do Brasil, ainda que meio melancólico e fantasmagórico como no filme, invisível para grande parte das pessoas ao redor, para toda uma classe média que vira a cara para renegar aquele rosto esquecido de um país que não existe mais. Vendo esse filme hoje e pensando no nosso cinema como está, dá até vontade de ir à estréia do novo filme do clã Barreto, esse sobre o presidente do Brasil, completamente nu. O cinema brasileiro parece que nasceu com roupa. Não foi sempre assim.
*Visto na 4ª CineOP.
Filmes Citados:
Dona Flor e Seus Dois Maridos (Idem, 1978/Bruno Barreto)
Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, 2008/Fernando Meirelles)
O Cheiro do Ralo (Idem, 2007/Heitor Dhália)