
Teresa
por Gabriel Martins
Existe uma tendência no cinema brasileiro dos últimos 10 anos (ou menos) de explorar narrativas centradas em um personagem registrando-as de forma naturalista. As mulheres estão fortes aí: Suely, Alice, Cleusa, dentre outras. A ficção intersectando o espaço documental, a cidade-cenário, tem obtido um espaço constante na produção de curtas-metragens. Quase sempre estamos lidando com personagens que se deparam com um problema e, a partir daí, imergem numa espécie de vazio urbano contemporâneo. Busca-se aí a individualidade no meio do caos, pequenas esferas de redenção que operam fortemente através de suas escolhas de elenco, câmera essencialmente observadora (na mão, buscando variadas maneiras de olhar o personagem) e quase sempre um som naturalista, que quando se utiliza de trilhas cria uma ambientação tendencialmente indutora new age.
Teresa se encaixa perfeitamente nesta linha, o que gera problemas e acertos. O curta provoca bastante pela maneira como se desenvolve principalmente a personagem Carmen (dona da lanchonete) e a descoberta de sua condição igualmente carente – ela projeta em Teresa a imagem de sua filha sumida. Basicamente, Teresa quer discutir sobre histórias que se cruzam, sendo a rodoviária local síntese destes encontros e desencontros inerentes ao espaço urbano. Como já dito no início, busca-se a singularidade, a poesia que pode ser o batom, o diferencial de cada personagem de modo a resgatar algum tipo de humanismo perdido no espaço frio da sociedade contemporânea. O curta também diz fotograficamente este olhar documental, manipulando a luz em cena, acertando o registro durante o plano e assumindo o Super-16mm (que é necessidade para uma maior facilidade de operar a câmera na mão) em todas suas propriedades específicas.
Dito tudo isso, é preciso pensar como esta maneira de contar exemplificada em Teresa e nos vários filmes que acompanham esta tendência cinematográfica podem ser, principalmente em repetição, sintoma de certo esvaziamento de uma profundidade lingüística cinematográfica. Existe uma forte influência de um “cinema de etéreo” como, por exemplo, Wong Kar Wai em seu sentido mais pretensiosamente complexo de experimentação visual (My Blueberry Nights como ponto fraco, Amor à Flor-da-Pele como ponto alto). Em certo momento esta linguagem pode ter se dado como experimentação, mas hoje, principalmente observando-se a facilidade com que estes elementos já tratados no primeiro parágrafo conseguem apreender o espectador, tornou-se quase uma linguagem de dominância no cinema brasileiro, entregando a seus personagens e ao vazio um caráter lacunar que mesmo sendo convidativo, é ironicamente mais objetivo que subjetivo.
Em processo contínuo, foram e estão sendo gerados vários filmes com uma mesma linguagem. Teresa me agrada em muitos aspectos, mas é preciso, na crítica, alertar para a excessiva ocupação de um mesmo espaço na nossa cinematografia. Este espaço está lá, e é também interessante, mas também é preciso debulhar o panorama até pra buscar entender como o excesso desta “lógica” de registro nos filmes brasileiros pode ser sintoma de um esvaziamento criativo. Teresa, mesmo leve e interessante, tem opções estéticas e narrativas que o tornam mais do mesmo, ainda que, para ser justo, seja preciso dizer que é muito bem conduzido e honesto em seu suspeito local cinematográfico.
*Visto na 4ª CineOP.
Noite de Domingo
por João Toledo
Assim que surge na tela, o curta de Rodrigo Hinrichsen já está a explorar certo grafismo noturno bem típico do cinema contemporâneo, com seu uso gasto do desfoque, criando círculos de luz que cruzam o plano sem encontrar materialidade. O personagem é só, existe único no plano, cruzando túneis e ruas quase desertas; ruídos demonstram que existe vida ao redor, mas está distante, no extra-campo, escapa ao universo do protagonista – a sessão inteira de curtas da praça lida com essa tal solidão contemporânea, e examinadas através de intenções formais muito similares, quase como se uma fórmula estética demonstrasse certa hegemonia dentro do espaço da ficção pautada pela narrativa. Enquanto a realidade do documental se desvincula do realismo para encontrar muitas novas formas, a ficção encontra no realismo novo paradigma. Isso torna difícil a busca por algo esteticamente genuíno, vigoroso do ponto de vista da criação.
O curta parte de uma obra de Caio Fernando Abreu para chegar às imagens que supostamente traduziriam o encontro entre solidões que rege a narrativa, mas é mal sucedido na medida que depende de uma série de artifícios – em especial a voz em off – para se aproximar da idéia do conto e externar para o público o que é interno ao personagem. Essa voz, além de cafona e desnecessária, demonstra querer explicar o inexplicável sentimento do homem perdido numa vida de parcas trocas, demonstra querer nos aproximar do personagem intangível através dessa banal conexão verbal. Provavelmente ninguém irá negar que trata-se de uma boa idéia, a do estranho encontro entre os dois personagens sem nome, enterrados em suas próprias solidões. Mas cinema não se faz de boas idéias, mas de boas imagens. E, voltando às imagens, por uma aparente covardia, o filme parece operar sempre sob o amparo da urgência, pressa, impaciência, criando um falso dinamismo que inexiste na noite daquele personagem – parece querer ser palatável para quem vê; açúcar na amargura, olhares diversos para nada se encontrar, noite de imagens fáceis, nenhum resíduo estético.
*Visto na 4ª CineOP.
A Distração de Ivan
por João Toledo
Estamos, ao início do filme, imersos numa espécie de poço ou cisterna, silhuetas de bonecos descendem lentamente e somem no plano, chegam a um destino indeterminado, a um fim que não se sabe exatamente qual ou onde. E, no curta, é talvez nesse meio do caminho que nos encontramos, em algum espaço indeterminado da vida de um garoto cuja inocência se esvai, se perde no extra-campo, se esgota na brincadeira, na troca com os amigos, na relação com a avó, no bairro já talvez irreconhecível. O curta traça sua linha narrativa tênue principalmente atravessando dois momentos; aquele em que o menino observa de fora um jogo de futebol e se divide entre o espaço interno e o externo à sua casa, e, mais tarde, aquele em que o menino é tornado vítima circunstancial quando, durante um jogo infantil, vira alvo da vingança de um jovem.
Apesar de se construir de um contraponto um pouco simplista para centralizar o amadurecimento de um garoto, o espaço de transição entre a inocência e um olhar mais melancólico que observa a realidade com mais nuances, o filme consegue se desvencilhar de um narrativismo banalizador em busca de conclusões. Os momentos finais, assim como os iniciais, tornam o curta uma experiência muito mais interessante do que seu encaminhamento - cujas imagens se vinculam mais facilmente a questões de ordem sociológica e psicológica, ao contrário do início e do fim, feitos de imagens codificadas cujo sentido existe apenas para o garoto e não em função de sue entorno. Aí está a real beleza do filme, nos momentos em que a imagem lida com algo singelo e pessoal sem nunca impingir a eles respostas ou sentidos.
Dito isso, vale ressaltar que nesse meio perdido, um pouco desinteressante, há uma espécie de descuido com a imagem, uma banalização da forma em função de um naturalismo que se torna desculpa para uma mise-en-scène desleixada. Essa vontade de quase reproduzir o documental diminui a força expressiva das cenas, pois não se consegue nem deixar que os momentos de ação existam plenos na imagem e encontrem uma significação por si mesmos, nem se consegue dar a essas imagens, nesse movimento intenso de câmera na mão, interesse para além de da ação, interesse estético. Essa coisa meio conturbada de emular a realidade que tem se tornado um paradigma contemporâneo é coisa bem chata e desinteressante – mas o filme consegue ir além.
*Visto na 4ª CineOP.
Filmes Citados:
Noite de Domingo (Idem, 2008/Rodrigo Hinrichsen)
A Distração de Ivan (Idem, 2009/Cavi Borges e Gustavo Melo)
Teresa (idem, 2009/ Paula Szutan e Renata Terra)
Um beijo roubado (My blueberry nights, 2007/ Wong Kar Wai)
Amor à flor-da-pele (Fa yeaung Nin wa, 2000/ Wong Kar Wai)