Sessão Cine-Escola: Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet

 

 

por Ursula Rösele


Entre os Muros da Escola já inicia com uma espécie de convite à imersão no espaço sugerido pelo título. Entre os muros supõe um meio-termo, não se está propriamente dentro do universo do professor/protagonista, assim como não se sabe mais dos alunos do que o que é exposto naquele “entre” lugares e interiores que vemos ali. Temos um primeiro plano da nuca do professor François Marin (interpretado pelo ator/autor/roteirista François Bégaudeau) indo em direção à escola, nesta que é a única sequência externa de todo o filme. Sabemos, por sugestão, que ele não somente deverá ser o protagonista, como, nesse pequeno instante que vemos o que ele vê através de sua nuca, poderemos estar seguindo rumo a uma perspectiva mais dele que do restante.

 

Porém, essas impressões narrativas que a câmera nos passa mostram-se posteriormente não tão explícitas, mas sempre inseridas nessa idéia de “entre”, de meio do caminho entre o real e a ficção, o ator e o não-ator, o realismo e a impressão que se tem dele. François e toda a ambientação do filme dão essa sensação palpável, como se a lente da câmera e a tela de projeção fossem estratagemas de distanciamento não tão fortes quanto o peso narrativo e sensorial contido ali. Diferentemente de algumas explanações de André Bazin acerca de estratégias que priorizariam o realismo no cinema dando ao espectador a chance de construção narrativa que mais lhe fosse aprazível, o diretor Laurent Cantet não se utiliza de planos-sequências muito longos ou de profundidade de campo. Seus enquadramentos em geral são fechados, com muitos planos-detalhes e foco na pessoa em primeiro plano ou naquele que provavelmente deve direcionar o nosso olhar.

 

Muitos cortes entremeiam as ações, proporcionando um movimento interessante ao filme. Quase nunca estamos estáticos em um ou outro lugar, mas navegamos a todo o tempo por rostos, silêncios e intransigências dos alunos para com a aula que, quanto mais energia eles possam sugar, mais parecem se interessar por ela (ou pelos processos catárticos que se desencadeiam da mesma). Essa profusão de cortes possibilita uma forte tensão para os instantes em que os alunos levam o professor Marin ao limite de uma sempre iminente explosão. Instantes em que ele olha fixamente para uma sala da qual não veremos seu contraplano e, em silêncio, busca claramente forças para seguir em frente. 

 

O limiar ficção/realidade de Entre os Muros da Escola é curioso, pois não necessariamente se dá na clássica estrutura narrativa de um filme que se pretende real, uma vez que a câmera e a montagem interferem na ação constantemente. Seu poder se encontra no clima que o filme constrói, não somente pelo mérito do diretor, mas por um professor que é professor e por alunos que são de fato alunos fora do filme. No interpretar-se a si próprio ou – supondo que eles não sejam “tão” insolentes e que as aulas de Bégaudeau não sejam daquela forma – no imergir-se numa interpretação que lhe é familiar, mas não é você, este filme constrói belamente um universo contemporâneo não somente da França e sua concentração multi-étnica e racial, mas um lugar de identificação clara, tensa, que imprime ao filme esse “ar de real” que ele tem.

 

Toda a construção está localizada dentro da turma de francês do professor Marin, porém, indo com ele, acompanhamos a sala dos professores, a sala do diretor, o pátio da escola e as conversas que ele tem em alguns momentos nos corredores. É um protagonista que não protagoniza todas as ações, pelo contrário, as divide o tempo todo com todos os alunos, suas manifestações, os professores e suas questões, o surto momentâneo de um determinado professor e todos os presentes no Conselho Disciplinar próximo ao desfecho.

 

No recente filme de Kiko Goifman Filmefobia, o estudioso de cinema Jean Claude Bernardet atua como o diretor de um documentário que tem por objetivo encontrar uma “imagem verdadeira” e passa a buscá-la durante filmagens de fóbicos, não-fóbicos, atores e não-atores, diante de uma situação que – não sabemos se real ou interpretação – eles são colocados com bichos, aparelhos de tortura, etc. Ao longo do filme o “personagem” Bernardet disserta sobre a frase “a única imagem verdadeira é a de um fóbico diante de sua fobia” – que um ator pode alcançar essa tal “imagem verdadeira” ao interpretar uma fobia que não possui. Ou seja, se o cinema é capaz de imprimir o verossímil vestido de real através da interpretação, Entre os Muros da Escola parece trafegar sobre essas questões constantemente, uma vez que não se configura propriamente como documentário nos moldes clássicos, mas contém todos os indicativos de uma instância real que nos é próxima. Seria esta proximidade atingida por se tratar de uma questão tão atual do mundo ou de fato a imagem verdadeira depende mais de quem a vê do que de quem a protagoniza, como já refletia Bazin?

 

Fato é que Entre os Muros da Escola está inserido dentro dos grandes filmes feitos sobre o sistema de ensino, suas deficiências e o lugar do humano-professor e dos alunos-humanos. Seu final dá uma conflituosa sensação de processo cíclico, que não necessariamente diz que aqueles são apenas mais alguns alunos de um todo sempre igual, mas de uma realidade da qual nem sequer o cinema alcança o domínio da redenção. Apesar de todos os problemas, da expulsão de um dos alunos, de um Conselho Disciplinar que parece sempre voltado para uma conclusão imutável, o semestre fatalmente irá acabar, o retorno às férias trará novos alunos, conflitos e personalidades alteradas pela puberdade e os professores estarão defronte a difícil arte da docência, que não pode abarcar somente seu significado em si, mas passeia constantemente conturbada entre o ser humano e seus limites.

 

Filmes Citados:

Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, 2008/Laurent Cantet)

Filmefobia (idem, 2008/Kiko Goifman)

 

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