A Dama do Lotação, de Neville D´Almeida

por Marcelo Miranda

A Dama do Lotação é quase um filme imbatível. Para atingir a massa popular que freqüentava o cinema brasileiro nos anos 70, a protagonista era Sônia Braga, atriz muito em alta na época por participar com grande repercussão de novelas na Globo. O chamariz “Sônia Braga pelada” foi fundamental para o alcance e repercussão que o filme conseguiu quando exibido comercialmente. Por outro lado, o longa adaptava (e ampliava) um conto de Nelson Rodrigues e trabalhava algumas referências que garantiam o lado “prestigioso” do longa-metragem, ajudando-o a se “justificar” como produto audiovisual relevante junto a qualquer patrulhamento que pudesse sofrer, fosse da parte da crítica, fosse de alguma parcela de público supostamente mais letrada – e bem menos liberal.

Sendo assim, A Dama do Lotação atraiu aproximados 7 milhões de espectadores, o que o deixava como o segundo colocado no ranking brasileiro da época, atrás apenas de Dona Flor e seus Dois Maridos (feito dois anos antes e também com “Sônia Braga pelada”). Visto mais de três décadas depois, o filme de Neville D’Almeida perdeu boa parte de suas cartadas: a atriz é motivo de chacota desde quando foi tentar carreira internacional e o uso de Nelson Rodrigues como baliza de reconhecimento já ficou para trás. E justamente por essas faltas é que A Dama do Lotação nos parece ainda tão fascinante: sem estes sustentáculos que o tempo tratou de explicitar, o filme continua surgindo muito forte na tela, ainda cheio de questões relevantes sobre a falsidade das relações sociais e como retrato, à base de acidez e ironia, da sexualidade tipicamente brasileira.

Ora, Solange (Sônia Braga) agrega dois aspectos que parecem se contradizer e funcionam como retrato de duas facetas de boa parcela da população: a esposa recatada e sexualmente reprimida, e por isso uma boa esposa (“Era santa porque era fria”, diz o personagem de Jorge Dória, ao relembrar sua falecida mulher); e, ao mesmo tempo, a devassa sem um pingo de arrependimento ou moralismo, que se deita rotineiramente com o primeiro homem com quem se encontra ao andar de ônibus. Em cada camada de Solange, repousa uma série de valores e contradições muito facilmente identificáveis na sociedade, mas poucas vezes colocada à tona ou à prova – a não ser nos consultórios terapêuticos, dos quais Neville oportunamente faz joça.

O que o filme vai desenvolver de modo despudorado (e, por isso mesmo, de maneira tão eficiente) é invadir as entranhas de uma falência familiar em que a ordem parece ter se invertido. Se o sogro da noiva valoriza a mulher carola e “pura”, a geração seguinte (a de seu filho, encarnado por Nuno Leal Maia) terá que se deparar cara a cara com a verdadeira face e conseqüência dessa carolice – ao mesmo tempo em que o próprio entusiasta desse tipo de comportamento (o pai) descobrirá uma intimidade até então desconhecida de sua própria esposa. É por conta disso que uma revelação que, à primeira vista, parece não se encaixar muito bem no filme (a carta revelando a antiga relação lésbica da mulher do pai) é tão primordial para o efeito que A Dama do Lotação provoca dentro do universo retratado na tela. É uma teia de segredos que sempre estiveram ali, apenas aguardando ser descobertos.

Inserir questões como essas dentro de uma estética algo vagabunda, realmente sem vergonha, em que a nudez e o erotismo espreitam cada cena, é uma esperteza e tanto de Neville D’Almeida. Se é para falar de repressão e liberação, que os corpos nus façam as vezes de receptáculos das angústias dos personagens. O corpo é tão forte dentro do filme que, ao testemunhar a confissão das traições da esposa, o marido simbolicamente se suicida, pousando o corpo na cama sem perspectivas de sair dali. “Estou morto”, afirma categoricamente.

E o espectador, mesmo vendo Nuno Leal Maia falando e respirando, acredita na sua morte, porque o que lhe importava era ter a mulher toda para si (mesmo “fria e santa”). Ao se deparar com o extravasamento físico de Solange, a única solução, na sua concepção, é se retrair e abandonar o mundo. Solange, por sua vez, continuará a figura errante que consegue prazer com rostos desconhecidos, e sua maior dificuldade será lidar com o não-comprometimento de suas próprias atitudes. O corpo e o ardor da paixão, assim, continuarão sendo maiores que a mente.

*Visto na 4ª CineOP.

Filmes Citados:
Dona Flor e seus Dois Maridos (1976 / Bruno Barreto)
A Dama do Lotação (1978 / Neville D’Almeida)

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