
por João Toledo
Antônio Galante, figura resgatada do universo da Boca do Lixo pelo documentário de Luís Rocha Melo e Alessandro Gamo, foi um seminal produtor de cinema, responsável por uma série de sucessos do cinema popular brasileiro, principalmente da década de setenta. Galante funciona no filme como uma espécie de pivô para o resgate também de diversos personagens que compunham aquele universo da boca. Há no filme uma competente condução das narrações desse espaço plenamente ambíguo, uma compreensão por parte dos realizadores da complexidade inerente à atitude de trazer à tona esse passado aviltado da cultura brasileira. Pois nem o tempo soube separar, aos olhos do povo, o joio do trigo, e uma cinematografia inteira é vista com desconfiança e preconceito, tratada como vulgar. Faz-se fundamental, portanto, encontrar na figura do Galante um incentivador do bom cinema, das obras cujo diálogo popular não fazia com que os filmes se rendessem às demandas do público e se esquecessem de ser cinema. Nesse sentido, o filme não poupa carinho aos personagens responsáveis por obras verdadeiramente cinematográficas, e o louvor a esse cinema se justifica até como contraponto ao vil esquecimento generalizado dessa década tão prolífica e importante.
Ainda que bastante interessado no que dizem seus depoentes, desde os incríveis e breves momentos em que Jairo Ferreira surge em cena às inflamadas explosões verborrágicas de Carlos Reichenbach, passando pela singeleza de um plácido Inácio Araújo, o filme se atém a esse ângulo do resgate quase acadêmico do que representava a boca do lixo. Ele observa distanciado, revelando a importância de Galante na vida desses figurantes e protagonistas, revelando o quanto o esquecimento fez mal àqueles homens que pulsavam cinema. Em geral o filme não parece muito interessado em se impor enquanto filme, enquanto linguagem, deixando que a fruição seja responsabilidade quase única daqueles homens de cinema. Parece não ter ousadias ou pretensões muito cinematográficas para além do retrato de um período que deveria falar por si só e ocupar seu lugar no espaço da nossa cultura.
*Visto na 4ª CineOP.
Filmes Citados:
O Galante Rei da Boca (Idem, 2004/Luís Alberto Rocha Melo)