A 300km por hora, de Roberto Farias

por Gabriel Martins

 

Foi interessante ver ontem, no Cine Praça, na noite mais fria da mostra até então, o público se entusiasmar com a leveza de A 300 km por hora. Haviam alguns olhares mais nostálgicos para os heróis Roberto e Erasmo, outros ainda jovens, encantados com as trapalhadas, as corridas e personagens  apaixonados. Filmes como este deveriam estar presentes hoje na sessão da tarde, esta que me apresentou vários Trapalhões e que hoje tem muito pouco presente filmes nacionais clássicos que facilmente se encaixariam neste contexto.

 

A 300km por hora é uma obra que mesmo facilmente identificável no estilo de sua época, prova ser atemporal. Há humor leve, bom uso de clichês que, além de provocar uma forte comunicação com o público, mantém coerência com o romantismo presente na própria música e na figura de seu personagem principal. Temos, portanto, um filme de personagens, atribuição que parece redundante – teoricamente, todo filme tem personagem - mas que vem a reforçar uma maneira de lidar com a narrativa que provoque uma reverberação do carisma de cada elemento deste universo ficcional.

 

Lalo (Roberto Carlos) observa o carro com nome da garota com paixão. Ele é o herói, o mecânico que pilota bem, mas não vê condições de demonstrar o seu talento devido a sua posição profissional – tal qual sempre foi o personagem Didi Mocó. Valem os clichês: o amigo Pedro Navalha, que faz de tudo pelo amigo, os parceiros atrapalhados, a idealização de Lalo pela garota do chefe, Luciana. Roberto Farias filma (literalmente, pois opera a câmera do filme) com a mesma precisão de Assalto ao Trem Pagador, ciente dos limites do filme que faz, mas explorando-os com muito bom humor. O herói, piloto, vê a mocinha em câmera lenta. Ela é a leveza, a lentidão para a sua velocidade. Nada mais Roberto Carlos que isso.

 

Ao fim do filme, Lalo sozinho presencia o amigo Pedro sair da igreja casado – sua imagem é a de um levitar de corpos, uma melancolia – Lalo não teve a garota – transformada em fraternidade. É um filme com Roberto e Erasmo, uma amizade que se faz em tela sem ser necessária uma única declaração durante o filme. A cumplicidade está lá, um suportando o outro, cobrando, em química à lá Dedé/Didi, para voltar aos mestres. O princípio dos 70 (com resquícios de 60) estão fortes: Reginaldo Faria acumulando mulher, as músicas de Erasmo e Roberto embalando os treinos, Libânia Almeida pilotando moto em alto estilo e uma série de movimentos de zoom cafajestes no melhor sentido. Ainda visivelmente viva, A 300 km por hora é uma obra divertidíssima e despretensiosa signo de um cinema pouco compromissado politicamente com o seu tempo, mas, mesmo assim, importante como exemplar da nossa cinematografia.

 

*Visto na 4ª CineOP.

Filmes Citados:        

A 300km por hora (idem, 1972/ Roberto Farias)

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