CURTAS – Série 4

por Ursula Rösele

Nem Marcha Nem Chouta

 

Um filme que não é nem uma coisa, nem outra. Nem marcha - talvez metaforizando algum progresso daquele ali em estado estático à mercê de sua realidade -, nem chouta – esse trote, esse caminhar miúdo e incômodo, de criança, de quem não pode responder por sua própria existência. Um filme que não é ficção, nem realidade. Apenas um lugar perdido no mapa, uma criança e seu olhar fixo naquilo que lhe é estranho ali: a câmera. A nós, já acostumados com a idéia do registro, o susto pelo cruel do espaço: a carne crua, o sol que castiga, as moscas, a seca e a realidade de uma situação distante de um universo no qual as câmeras transitam por todo lugar. O que resta ali é o boi morto, decepado, símbolo imagético e literal do que há no “entre filme/realidade”: a beleza do cruel, revelando a crueza do real.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Cães da Vizinhança

O acaso parecia aguardar a presença de Gabriel Sanna neste curta. Provavelmente madrugada, dois cães estão em uma calçada. Um deles, totalmente inerte, em uma posição curiosa de patas para cima. O outro, em um ímpeto primitivo, aproveitando-se da situação estática do primeiro. A câmera acompanha, a imagem granulada e a trilha muito bem pontuada dão um tom curioso para a sequência. Estaria o cão morto e nós convidados a uma cena necrófila de animais? O aparente sombrio cede seu lugar ao acaso mencionado acima: o cão inerte se move, a câmera lenta segue os dois pacientemente e como que dirigidos por Sanna, os cães caminham para o canto direito da câmera e encerram este pequeno instante de carinho. Eis a magia do cinema já discutida por muitos, já profetizada pelos Lumière no curta O Almoço do Bebê em que uma sequência aparentemente comum acaba por registrar a natureza ao fundo, como que à mercê de sua câmera; o acaso possibilitando um momento único, no qual a câmera, ainda que com intenções prévias, pode se deparar com o não premeditado e resultar em algo além do prenunciado por aquele que a colocou em posição de registro.

*Visto na 4ª CineOP.

 

Fortaleza – Caucaia

A sessão de curtas da série 4 foi centrada em uma ideia de fluxo do tempo, do registro, de imagens granuladas em sua maioria. Infelizmente, os curtas Bolívia te extraño e Fortaleza – Caucaia foram extremamente prejudicados pela projeção. Ambos os filmes totalmente dependentes de sua fotografia e com toda força centrada nas imagens capturadas pelos diretores. Outra questão se deveu ao fato deles não terem créditos (Bolívia ao final e Fortaleza no início), o que dificultou a percepção do público de onde terminava um e começava o outro, já que ambos foram captados na maioria do tempo na perspectiva de um trem. De toda forma, fica o desejo de revê-los em outras circunstâncias, pois além de se relacionarem bem entre si e com a sessão de ontem, possuem imagens esteticamente instigantes.  

*Visto na 4ª CineOP.

Arbanella

Arbanella é um conjunto de vestígios do passado capturados em câmeras caseiras de 8mm. O interessante da montagem do filme de Felipe Barros está justamente na apropriação de imagens que geralmente são usadas para remeter a momentos lúdicos e familiares, portanto, a trilha escolhida por Barros e a maneira com a qual o filme foi montado deram a ele um tom sombrio e medonho, numa espécie de subversão do registro clássico saudosista dando vazão a uma experimentação estética que potencializa totalmente aquelas imagens.

*Visto na 4ª CineOP.

 

Divergrandpa

No rumo de Arbanella, ainda nessa ideia de modificação do formato tradicional de registro de imagens como forma de eternizar momentos e pessoas, Igor Amin construiu um curta com tons contemporâneos, narração computadorizada, alcançando como resultado uma poesia de extrema doçura sobre seu avô mergulhando em uma piscina. Além de um tom satírico no ponto certo, o filme tem o tempo exato – e muito expressivo. Em termos mais abrangentes, esse tipo de filme é muito comum e corre o risco quase frequente de cair no clichê e ficar enfadonho. Amin desenvolve essa linguagem hightech e a curiosa analogia de seu avô ser como um Windows para um computador. Necessário, visceral, parte de sua vida.

*Visto na 4ª CineOP.

 

Sweet Karolynne

Em uma cidade da Paraíba, a situação mais insólita impossível: uma garota de uma maturidade impensável para pessoas com o triplo de sua idade, um galo de estimação chamado Jarbas e um pai que trabalha como cover de Elvis Prestley. E como resultado um documentário que ao invés de utilizar-se de estruturas clássicas de documentação, buscou a essência maior daquela realidade: uma criança precoce, uma família extremamente curiosa e toda essa cadência pontuada por uma montagem que potencializa o que de mais interessante poderia ser registrado dali sem cair na velha e cansativa estrutura documental de registro.

Os animais de estimação de Karolynne são galos. No plural, pois o mais impressionante na garota é o desprendimento com o ritmo natural da vida: em determinado ponto de seu crescimento, o galo irá para o corte e em seguida para a mesa da família. O que poderia ser um trauma para uma criança demonstra sua maturidade incrível para a vida. Karolynne compreende perfeitamente esse processo, já denotado em sua primeira frase no filme: “- O que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?” E ela, sem pestanejar: “a galinha”. Ela vem já de uma banca na qual é comprada pelos pais. Ou seja, a garota já compreende o ritmo industrial e natural da sociedade carnívora. Não existe um processo lúdico envolvido, a relação de um galo e uma galinha resultando num pintinho.

Essas questões se alastram no filme, quando Karolynne comenta o trabalho do pai. A garota o vê diariamente se transformando em Elvis Prestley e parece aficcionada com a ideia de morte, sem que isso seja visto de uma forma trágica. Ela sabe que o cantor morreu e protagoniza uma das sequências mais engraçadas do filme a esse respeito: passeando pelos posters da casa, mostra um Elvis semi-morto (suado, quase morto), o Elvis em sua boa forma, vivo. Uma criança que certamente poderia ensinar muito aos adultos. Filme que transita nesse limiar que muitos passam uma vida sem aceitar: a efemeridade da vida, sua crueza e o potencial para a doçura e o sorriso durante esse meio tempo.

*Visto na 4ª CineOP.

 

Julia Roberts

Ser Julia Roberts em Uma Linda Mulher certamente já foi desejo de muitas mulheres. No curta, a prostituta encara a câmera com um olhar extremamente expressivo e uma projeção em seu rosto possibilita esse devaneio fantasmagórico, no qual o rosto da atriz hollywoodiana se funde no seu. Com leves passagens de suas mãos no rosto, a prostituta brasileira quase se transmuta totalmente na atriz. Possibilidade funesta de atravessar esse limiar ficção-realidade do cinema. O fim da projeção revela a frustração daquela que é mais uma de muitas mulheres acometidas pela impossibilidade de vislumbrarem uma vida mais digna. O texto acompanha a sequência de uma maneira um tanto esquemática, porém, toda a força se concentra no visual contundente do filme.        

*Visto na 4ª CineOP.

 

Bolívia te Extraño

por Nísio Teixeira

 

O primeiro filme de Dellani Lima apresentado na série recolhe imagens de uma trajetória pela Bolívia e investiga as texturas possíveis de som, luz e movimento nesse percurso. A música típica do charango, a hiperalvidez do famoso “deserto de sal” e, de especial efeito, o balé de cores e saias em momento peculiar do filme são exemplos distintos dessa estratégia.

 

O interessante é que ele se inicia com uma fotografia em contra-plongée de umas crianças em cima de uma armação de madeira e finaliza com o que parece ser uma derrapada dos carros durante a viagem pelo deserto, terminando com nova fotografia: a de uma singela borboleta.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Filmes Citados:
Nem Marcha Nem Chouta (idem, 2008/Helvécio Marins Jr.)
Cães da Vizinhança (idem, 2008/Gabriel Sanna)
Bolívia te Extraño (idem, 2008/Dellani Lima e Joacélio Batista)
Fortaleza – Caucaia (idem, 2008/Gabriel Silveira)
Arbanella (idem, 2009/Felipe Barros)
Divergrandpa (idem, 2008/Igor Amin)
Sweet Karolynne (idem, 2009/Ana Bárbara Ramos)
Julia Roberts (idem, 2009/Daniel Antônio)
Uma Linda Mulher (Pretty Woman, 1990/Garry Marshall)
O Almoço do Bebê (Le Déjeuner de Bébé, 1895/Louis e Auguste Lumière)

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