CURTAS – Série 3

por Leonardo Amaral

O crescimento do uso da tecnologia digital e os baixos custos advindos dessa prática do vídeo demonstram que o exercício cinematográfico diverso não passa, necessariamente, por questões de suporte técnico. A facilidade propiciada pela utilização dessas câmeras tem determinado cada vez mais o fim de quaisquer dessas barreiras entre ficção e documentário. O que temos, acima de tudo, são filmes e uma câmera em contato com o mundo. Os quatro curtas da série 3 da Mostra Cineop, de uma maneira geral, representam esse modelo de olhar para o  mundo e tentar apreendê-lo ao mesmo tempo em que é clara uma opção de se encenar esse universo.

Nesse sentido, Longa vida ao cinema cearense é aquele que deixa mais evidente o seu dispositivo. O que temos é uma espécie de mise-en-abisme, ou seja, o olhar do olhar, o próprio processo que se opera diante da câmera. O filme dos irmãos Pretti funciona como uma metáfora para o cenário encontrado em Fortaleza no momento: um exercício cinefílico conjugado a uma necessidade de se levar para tela anseios e questões oriundas de tudo isso. As referências vêm, inclusive, do próprio cinema feito no Ceará, como, por exemplo, o Mickey de Espuma e osso – de Ticiano Monteiro e Guto Parente -, que, agora, retorna, junto ao outros personagens, para funcionar como uma espécie de metonímia de filmes que necessitam ir às ruas, que fogem das convenções de produção para se construir por meio dos recursos possíveis. O Mickey que leva seu projeto para ser analisado e é espancado por avaliadores é a reafirmação de que cinema não está em papéis, está na rua, na câmera que, na mão, percorre os quarteirões da cidade até chegar ao filme.

Inserção num espaço para, posteriormente, recriá-lo: é o que fazem Os boçais, de Lufe Bollini e Nas duas almas, de Verbis Jr. Porto Alegre e o ABC paulista são o cenário para ficções que, em momento algum, querem esconder seu modus operandi. Os boçais remodela uma capital gaúcha de maneira cinematográfica, referenciada por seu bar estilo faroeste, mas, aqui, brasileiro em sua forma. Ao contrário do que se apresenta à primeira vista, o curta de Bollini é muito mais que uma simples paródia ao universo que se procura inserir: Os boçais recoloca tipos dentro de universo que eles não necessariamente estariam. Há uma opção claramente de se colocar em evidência o próprio fazer do cinema, de se mostrar como a construção é o próprio cinema. Partindo-se dessa característica, o filme de Bollini dialoga diretamente com os Mickeys cineastas dos irmãos Pretti.

De alguma maneira, mesmo que por caminhos diferentes, Nas duas almas também se constrói nas suas limitações e na evidência de seu modo produtivo. Verbis Jr. insere sua câmera em um underground paulistano, mas o faz de uma maneira que foge de todas as armadilhas da narrativa. O diretor usa uma câmera que claramente não quer esconder sua baixa resolução. Mas, ao contrário do que se pede do vídeo, Verbis Jr constrói um filme com intuitos narrativos, colocando-se diretamente no universo que quer reproduzir. Nas duas almas não faz rodopios ou perfumarias, se coloca de maneira suja no ambiente sujo que retrata. O filme é também seus atores e a forma como se evidenciam em cena. Nas duas almas também (e talvez) existe por conta de uma quase improvisação de Milhem Cortaz frente à câmera, ou mesmo na auto-encenação de Supla. Uma cena que talvez dê o grande tom do que é Nas duas almas é a em que estão, em um bar, o casal que, pouco antes, havia brigado. Em um plano de frente, eles tentam uma reconciliação em diálogo que mostra o quanto tudo aquilo é complicado. No entanto, não há uma forte dramatização da conversa, pelo contrário. Após o término, a moça sai e, pela profundidade de campo, vemos chegar um rapaz que, sem pudor algum, olha para a traseira dela, para, segundos depois, se sentar junto ao personagem de Cortaz e com ele iniciar uma conversa. Verbis Jr. mostra seu universo na naturalidade que lhe convém. Nada mais natural então que a estética do vídeo a favor da ficção. Os outros dois filmes provam que uma forma de olhar já é uma forma de documentar um mundo.

*Vistos na 4ª CineOP.

 

Terra

por Gabriel Martins

 

Em sua obra anterior, Mercúrio, Sávio Leite não me convenceu. Por mais que contenha uma idéia de expressão marginal de animação, o filme não era o bastante para poder provocar algo além da pura experiência visual. Já este novo, Terra, me pegou. Se a proposta de retratar os planetas (presentes como títulos de outras obras do realizador) nos possibilita vislumbrar a alguma alusão ou referência, pode-se dizer que uma animação conturbada e caótica como esta consegue compactar algum tipo de experiência possível de ser filosofada sobre o nosso planeta. Narrada de forma instigante por Paulo César Peréio, a animação ainda se utiliza de uma trilha tensa (PexBaa), que nos coloca o tempo todo na vertigem da animação ali feita. A sensação é a de um caderno com desenhos sobre desenhos, a de complementaridade do traço ao mesmo tempo em que este próprio é subvertido em uma animação que não necessita de qualquer esclarecimento contextual: ela simplesmente existe. No todo, Terra propõe uma aproximação da realização da obra que nos traz a ausência de um começo e de um fim, como se o processo fosse eterno. E com isso, o nome “Terra” se encontra devidamente apropriado, titulando uma representação que, acima de tudo, propõe uma constante soma de traços e idéias - sendo que as idéias são, na verdade, os próprios traços.

 

*Visto no 2º CineBH.

 

Filmes Citados:
Longa vida ao cinema cearense (idem, 2008 – Irmãos Pretti)
Os boçais (idem, 2008 – Lufe Bollini)
Nas duas almas (idem, 2008 – Verbis Jr
Terra (idem, 2008 – Sávio Leite)

 

Leia novidades instantâneas em nossoblog.