
por Leornardo Amaral
Ricardo Dias, antes do início da sessão, disse ser seu filme sim um documentário, mas talvez muito mais um musical que se constrói nos versos do compositor Paulo Vanzolini. O filme carrega exatamente essa ambigüidade, faz opção estética por artifícios básicos como o uso de talking head praticamente durante todo o filme, além de narração em off com intuito meramente descritivo. Por esse aspecto, Um homem de moral é bastante convencional: propõe a relatar vida e obra de Vanzolini e o faz em consonância com o próprio cotidiano da cidade de São Paulo, quase sempre cantada e representada nas canções do músico paulistano.
A princípio a informação sobre a real profissão de Vanzolini - pesquisador, zoólogo e professor – seria algo desnecessário e fora de contexto. Mas isso é colocado de maneira tão simples e objetiva, usando-se off e fotos de arquivo, que ela ajuda na construção imagéticas das contradições de uma metrópole-objeto que é totalmente revisitada pelas músicas. São Paulo é vista em todos os seus dias e momentos, em seus monumentos e bares, iluminada por Carlos Ebert de maneira a sempre se mostrar o belo, o criativo, consonante às letras de Vanzolini.
Ricardo Dias faz um filme sobre a palavra e sobre sua relação com o espaço; o artifício, em certo ponto questionável, de ilustrar de maneira literal o conteúdo cantado nas músicas, soa quase orgânico dentro da diegese documental empreendida pelo diretor. A palavra, rima e forma de Vanzolini, é transcrita em tela; em muitas vezes é ela personagem-objeto, dentro de Um homem de moral é difícil desvencilhar o poeta-músico daquilo que glosa (por isso talvez seja interessante a narração praticamente explicativa sobre a atividade paralela do autor).
Frente a todos as questões que surgem durante sua constituição, Um homem de moral assume-se frente a essa problemática por realmente acreditar naquilo que se coloca a mostrar e representar. Não há uma espécie de espírito de louvação existente em alguns desses documentários que tentam construir a imagem de algum artista. O que temos: palavras. Felizes são as opções de explorar a música, repartir a tela, buscar as nuances em palco, em momentos de gravações. O depoimento de Adoniran Barbosa em arquivo ou a interprete que canta, em primeiro plano enquanto, ao fundo, vemos a cidade que continua em seu ritmo diário: todos esses elementos são o melhor retrato de Vanzolini - ou do compositor que se confunde e se perde na cidade. É cantado nas ruas, por várias pessoas – como nos últimos planos -, ao passo que o autor mesmo viveu grande parte da vida trabalhando em laboratório. Dias mostra a palavra para apresentar(ou representar) o homem.
*Visto na 4ª CineOP.
Um homem de moral (idem, 2009 – Ricardo Dias)