Doriangreen, de CarlosMagno e Andrés Schaffer

 

por Ursula Rösele

O diretor mineiro CarlosMagno já possui uma obra extensa de curtas – em suas próprias palavras – de guerrilha, nos quais utiliza-se de uma estrutura narrativa e imagética semelhante em diversos aspectos, mas possuidora de uma essência interessante de caráter autoral, político e muito corajoso. Para os frequentadores de mostras e sessões nas quais seus filmes são exibidos, pode-se construir um crescendo de sua obra, que intensifica a experiência de se assistir Doriangreen.

Magno é um diretor que não dá espaço para meios termos. Ame-o ou deixe-o parece ser a lógica dos espectadores que o acompanham. Neste caso particular de quem vos escreve, arrisco-me a dizer que estou muito mais para a primeira opção. Depois de passar por diversos de seus curtas, Doriangreen surge como uma espécie de catarse. Catarse de uma obra ainda nova, mas pungente, de um diretor de personalidade polêmica e ao mesmo tempo doce, com aparições (quando delas) curiosas, explicitações constantes de seus períodos de depressão e diversas tentativas de suicídio e por enviar representantes os mais diversos e peculiares para as mostras nas quais seus filmes são exibidos.

Curioso que Magno construiu um filme tão ligado a seus anteriores e àqueles que o conhecem pessoalmente, que não se pode dizer ao certo que tipo de apreensão esperar daqueles que não dialogam com sua obra como um todo. De toda forma, um filme visualmente curioso, com as clássicas interpretações que vagueiam pela espontaneidade e incapacidade de se aferir uma verdade absoluta na retratação do outro e na relação do outro com a câmera e uma estética a la Bloomberg (canal de TV a cabo com 100 informações por segundo), poliglota, metalinguística e atrevida.

Em Doriangreen Magno parece consumido pelo narcisista personagem de Wilde, passeando constantemente pela verdade-mentira, pelos limites impossíveis de se delimitar em suas narrações. A atriz principal (Larissa) aparece devidamente apresentada e fixada no olho da câmera, num lettering que a solicita que “chore”. Há espaço ali para o espontâneo? Magno sofreria de uma espécie de comportamento-Sganzerla que queria que até sua convalescência fosse registrada por seu genro Joel Pizzini (caso contado por Pizzini na Cineop passada), demonstrando uma relação tão carnal com a câmera que não há mais divisória entre real e ficção?

Fato é que essas questões não importam, pois o filme de Magno nos convoca a uma imersão sensorial na qual interessam a força do cinema e da mis-en-scène e não necessariamente a veracidade dos pontos colocados por sua narrativa (sua relação complexa com a mãe de seus filhos, um e-mail que parece dilacerar o lugar de Magno e questionamentos sobre o iminente esgotamento de suas estratégias). Magno segue num ritmo de imersão que, representando ou não uma pessoa consumida pelas questões que apresenta, faz um convite ao mergulho naquele universo de articulação certamente merecedor de uma tela de cinema numa sala escura.

*Visto na 4ª CineOP.

Filme Citado:
Doriangreen (idem, 2009/CarlosMagno Rodrigues e Andrés Schaffer)

*Para sessão completa de Curtas – Série 2 clique aqui.

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