
por Gabriel Martins
Se na sessão Curtas Série 1 a captação estava diretamente em jogo, podemos pensar a Série 2 como propostas de direção que se efetivam na montagem. Todos os filmes baseiam-se principalmente na junção de imagens que, mesmo planejadas, tem um projeto de funcionamento em conjunto, mais que individualmente.
Em O Vampiro de Pequim, acompanhamos a aventura de um brasileiro em outro país descobrindo o universo cinematográfico do local – em meio a outros estrangeiros. Neste cine-diário, em que a análise mais interessante feita é a relativa ao reconhecimento de cinematografias específicas (Jia Zhang Ke conhecido mundialmente, entre vários outros cineastas chineses desconhecidos), nada mais apropriado que esta presença estrangeira que busca diminuir esta distância entre culturas e ao mesmo tempo entendê-las individualmente.
JLG/PG, formalmente mimetizando Godard, narra a aventura de Paulo Gregori atrás de Jean -Luc, para ele o God Art - deus da arte. Esta idolatria é ironizada a todo momento, assim como os elementos pinçados do cinema do autor, usados como ferramentas da busca. Em texto: “o desprezo do cineasta que filmou o desprezo”. Gregori não só faz uma busca bem sucedida mesmo sendo mal sucedida (e imaginar todo o processo é divertidíssimo) como ilustra essa própria busca com uma estética que quase forja uma importância de fragmentação, referenciando-se sempre ao cinema de Godard ao mesmo tempo em que o joga a um vazio, a uma rifa de sentidos – o super-8, aí, é crucial como elemento de documentação, nostalgia, auto-importância jocosa. De Godard temos a voz que ridiculariza Gregori: “não é assim que se faz cinema”, para um filme que busca exatamente esta tortuosidade da cara-de-pau. Depois, Godard caminha sozinho, filmado de longe se afastando oculto e impenetrável. Cinema pode ser também esta falsa obsessão, esta contradição linguística, uma brincadeira elaborada que coloca a relação espectador-realizador-autor (tudo isto se confundindo) de maneira tão divertida como instigante.
Em Bomba!,, vídeo realizado como exercício baseado em impressões visuais sobre o maio de 68, temos uma busca por um resultado simbólico interessante surgido em sua montagem – e o filme é, como os outros da sessão, fruto mais claramente da significação conjunta. Busca, até por partir de um olhar jovem, um prisma mais estético, ou irônico-estético – acende o cigarro, acende o molotov - de uma revolução vista menos por um viés socio-politico e mais por um viés artístico e poético. É uma soma de belas imagens, imagens de juventude e espelhamento dos próprios jovens realizadores do contemporâneo.
Casa do Polanah é um filme que pode ser forte em um contexto específico mineiro. Fábio Carvalho referencia Humberto Mauro diretamente (“cinema é cachoeira”), propõe uma estética rústica de vídeo de câmera digital e faz uma série de colagens trabalhadas de forma a homenagear Rui Polanah mas também aqueles que ali discutem cinema (Geraldo Veloso sempre interessante). Também, faz um filme em grande parte bate papo, flertando também com essa efemeridade proposta pelo próprio simbolo do Mauro, um resgate de memórias feitas no presente e que, fixas em registro, possibilitam continuidade de uma história.
*Visto na 4ª CineOP.
*A crítica de Doriangreen, de CarlosMagno Rodrigues e Andrés Schaffer se encontra em outros texto aqui.
Filmes Citados:
O Vampiro de Pequim (idem, 2008/ Cássio Pereira dos Santos)
JLG/PG (idem, 2009/ Paulo Gregori)
Bomba! (idem, 2008/ Lara Lima, Marcelo Lima e Renato Coelho)
Casa do Polanah (idem, 2008/ Fábio Carvalho)
** Vistos na 4ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.