
por Gabriel Martins
Pensemos no plano - e no que efetivamente o constitui individualmente. Para o conjunto, a somatória de planos, um espaço aberto à exposição de pequenas obras de arte que se apresentam praticamente como quadros. Na sessão Curtas Série 1 pôde-se observar olhares interessados na fotografia. Esta, no seu sentido tanto cinematográfico como estático (fotografia still), se torna evidenciada em praticamente todos os filmes da sessão como uma tentativa de exposição do vídeo e, mais que isso, busca por uma linguagem impressionista e depuração das propriedades da captação cinematográfica.
Em Saltos, de Gregório Graziosi, realizador sempre interessante, existe um trabalho claro de sensações. Sempre em quadros estáticos (e dizer “quadro” é bem apropriado neste caso, dada a singularidade dos planos), esta narrativa suspensa soma pontos de vista sobre o movimento do corpo e da matéria. O personagem principal, atleta de saltos ornamentais, está perdendo sua audição. Este “problema”, que não necessariamente se desenvolve narrativamente – até porque não é preciso – é uma matriz para que se trabalhem ferramentas de imagem e som em todos seus potenciais sugestivos. Existe a tela inteira, a tela diminuída, o extra-tela, o enquadramento dentro do enquadramento e diferentes texturas através do som (som na água, o som ambiente, a alternância de filtros de freqüência). Saltos propõe, assim como outros curtas da sessão, o espaço para a vídeo-instalação. Entretanto, percebe-se que neste, mais que em qualquer outro, há uma vocação muito específica de ritmo e montagem cinematográficos, um filme efetivamente de 8 minutos (em oposto à proposta quase sempre em loop de vídeo instalações) para ser admirado em tela grande.
Em uma pegada próxima, ainda que mais persistente, estão Pretty Little Things: Surface Tension, Oscar 07/02 e Disforme. Há um sentido do experimental quase em um plano científico, como já exemplificado anteriormente, de esmiuçar a imagem. Em Disforme, principalmente, existe uma espécie de declamação às propriedades do dispositivo em relação ao mundo. É uma noção, para todos este filmes, de um poética contemporânea já pensada há muito por outras artes (basta pensar em Duchamp). O poético não se debruça necessariamente sobre a formação técnica ou acadêmica formal e também não se produz só no estúdio. Ela está na maneira de olhar o mundo e de resignificá-lo em uma modalidade artística específica – violando, inclusive, vários paradigmas destas modalidades no processo.
Estamos falando, nestes três filmes, de desconstrução e fragmentação do mundo, desde gotas na pia, ruas até puramente sombra e luz (os elementos primordiais para construção de imagens). Oscar 07/02 busca olhar para o espaço físico da cidade através de suas edificações. “A vida é mais importante que a arquitetura”, frase de Niemeyer exibida no princípio do vídeo, evoca a renovação de olhar para o mundo, a necessidade de perceber as nuances do mundo que não conseguem ser percebidas na velocidade da sociedade contemporânea. Estes filmes pedem que o espectador assuma um papel de observador – daí planos estáticos em praticamente todas obras. E se gotas na pia, este elemento que está em casa ao nosso alcance sem ser percebido como beleza toma um aspecto belo ao ser transposto para a arte, definitivamente algo está errado com o mundo, tornando o experimentar estético e artístico uma necessidade.
Sigmund é vídeo que mais destoa da sessão, uma animação que traz em si algo de Tim Burton, humor sarcástico e dark bonitinho– tanto em tema como realização – e estruturalmente uma forte carga literária. Ainda que o stop motion mais brusco seja interessante em paralelo à narrativa igualmente bizarra e trôpega, pouco de realmente instigante sobra do filme após sua exibição. Seu lugar um pouco ingrato na sessão, entre obras que buscam um outro tipo de atenção do espectador (mesmo se pensarmos que os “experimentais” vistos aqui não foram tão “pesados”), pode prejudicar parte do olhar. Mas tenho a tendência a crer que, mesmo em sua simpatia, Sigmund não reverbera.
Sobre Corpo no Céu, venho aqui complementar outro texto escrito por mim na 12ª Mostra de Tiradentes. Em revisão, o filme cresceu bastante. A saída de um país, a mudança, implica lentidão e observação. Neste aspecto, mesmo sendo mais declaradamente ficcional, Corpo no Céu se equivale aos filmes já citados, desta vez entregando o olhar poético à sua personagem principal. Joanna Newsom, que assina música tocada na íntegra ao fim do filme e antes me era um incômodo, agora virou quase uma necessidade – a música que provavelmente ficará na cabeça ao longo da viagem. Para Corpo no Céu, pode-se pensar que uma das únicas possibilidades de olhar afetivamente um espaço – e inclusive pessoas neste espaço - é no momento em que nos despedimos dele.
*Vistos na 4ª Mostra de CineOP.
Filmes Citados:
Saltos (idem, 2008/ Gregório Graziosi)
Pretty Little Things: Surface Tension (idem, 2008/ Pedro Veneroso)
Oscar 07/02 (idem, 2009/ João Krefer)
Disforme (idem, 2008/ Arthur Tuoto)
Sigmund (idem, 2008/ Vanessa Remonti)
Corpo no Céu (idem, 2008/ Luísa Marques)