Alphaville, de Luíza Campos

por Ursula Rösele

A ideia de uma sociedade cada dia mais segregada em detrimento da violência tem se tornado alvo dos documentários contemporâneos que centralizam seus olhares para determinadas comunidades; neste caso, com o adendo de uma questão social ainda mais complexa, que é a da formação crescente de micro-cidades construídas num esforço de mascarar uma realidade alarmante de extrema diferença de classes. Talvez o mais surreal na profusão dos “Alphavilles” (cadeia de condomínios fechados de luxo) sejam as pessoas que imergem naquele universo adotando diversas posturas não somente hiperburguesas como em alguns casos denunciando uma espécie de fascismo moderno assustador.

Há dois anos a Cineop exibiu o documentário Cidade Dual, do mineiro Leonardo Ayres, que trata justamente da dualidade existente entre o condomínio Alphaville na saída de Belo Horizonte e uma grande favela da cidade, na qual uma das moradoras trabalhava dentro do condomínio. Este ano a reflexão veio da paulista Luíza Campos, que se utilizou de um outro dispositivo para avaliar o Alphaville de São Paulo. A diretora se dirige ao espectador através de uma narração em off em primeira pessoa, colocando questões e impressões pessoais sobre sua permanência de dois meses no local. Segundo ela, sua família pretendia, anos antes, morar no condomínio, mas acabou ficando na cidade de São Paulo. Luíza Campos alugou uma casa em Alphaville e pousou seus equipamentos e poucos móveis por lá durante os dois meses nos quais produziu o documentário.

 Com as facilidades tão discutidas do acesso a uma câmera atualmente, são inúmeros os filmes inscritos em mostras de cinema promovidas no país, principalmente documentários que denunciam sintomas sociais contemporâneos, culturas específicas, práticas religiosas, folclóricas e personalidades. Alphaville é um longa bem intencionado, feito por uma jovem claramente da classe alta paulista, que buscou compreender as questões envolvidas nessa nova febre social (ou melhor dizendo, extremamente anti-social), através não somente da integração como moradora do local (num esforço de ver o que ela poderia ter se tornado caso sua família tivesse ido morar lá), mas com as pessoas de lá e suas posturas, através de entrevistas “coutinianas” nas quais elas apenas respondem a questões que não ouvimos e uma montagem por vezes um pouco complicada.

O filme se divide em quatro “partes”, por assim dizer: as sequências cult-vídeo-clípticas de Luíza Campos em seu carro e seu processo de mudança para a casa em Alphaville, as entrevistas com câmera parada dos moradores dentro de sua casa, diversas cenas desses mesmos moradores em suas rotinas e imagens do condomínio, em sua maioria pontuadas pelas divisórias muros-realidade externa. A diretora se diz inspirada pelo filme homônimo de Godard, que retrata uma cidade futurística na qual um agente secreto se infiltra a fim de encontrar a filha de um cientista inventor do Raio da Morte. Em Alphaville o Estado é totalitário e controla o sentimento das pessoas, em uma abordagem aparentemente inspirada em “1984” de George Orwell.

A questão no filme de Campos aparece de uma maneira um tanto quanto pueril, repleta de referências indie, através de uma montagem por vezes questionável pela colocação dos depoimentos como forma de confirmar uma aparente ideia pré-concebida que parece ter levado a jovem a “estudar” aquela sociedade particular. Existe uma espécie de conflito da diretora por se afeiçoar aos personagens com os quais passa a conviver, mas uma expressão um tanto imatura daquelas questões. As sequências em que a diretora aparece interagindo com a câmera denunciam seu lado adolescente (no bom sentido) de maneiras algumas vezes interessantes (como em algumas cenas dela passeando pelas suntuosas casas do condomínio e tirando sua câmera do tripé através de uma das milhares de câmeras de segurança que cercam o local), mas que por outras sua inserção corrobora por uma diminuição da potência neofascista presente nos posicionamentos de seus entrevistados (uma das moradoras se refere aos marginais urbanos como “restos de sociedade”). Em sua imersão, Campos também conseguiu imagens contundentes e impressionantes do condomínio, a exemplo da sequência em que acompanha um dos moradores passear com seu cão numa divisória dos muros de Alphaville, entre o condomínio e uma favela.

Existe um tom cool ficcionalizante um tanto incômodo, não tanto por colocar aquelas pessoas como personagens de sua ironia daquela sociedade bizarra, mas pela desigualdade no ritmo de suas reflexões, pela complexidade de ter colocado os entrevistados numa posição moralmente questionável. Campos parece ter montado todo um circo no qual eles se viram vestidos – provavelmente – sem saberem ao certo as questões de fundo nas quais estavam envolvidos. É óbvio que existe um sintoma grotesco na formação dos moradores - principalmente crianças criadas dentro daquele ambiente – de Alphaville que é muito interessante de ser notado, pensado e criticado, porém, com reflexões que busquem de fato compreender os problemas políticos, psicológicos e sociais envolvidos nesses sintomas.

De toda forma, reitera-se a intenção do filme, que certamente não parece ser maldosa. Existe com certeza uma situação complexa na sociedade contemporânea, não de uma desigualdade social (já presente em toda história do Brasil) apenas, mas da construção de um ideário por parte das classes altas que pode tomar proporções drásticas num futuro não muito distante.

Filmes Citados:
Alphaville (idem, 2009/Luíza Campos)
Alphaville (idem, 1965/Jean-luc Godard)

*Visto na 4ª CineOP.

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