Xica da Silva, de Cacá Diegues

por Leonardo Amaral

 Xica da Silva tem claramente um apelo popular, não somente por se construir na figura de uma escrava que ascende socialmente, mas, principalmente, por suas opções estéticas. Antes da sessão, Cacá Diegues disse que Zezé Motta é o filme. Uma personagem excêntrica que faz parte também de um meio repleto de excentricidades: o diretor explora essas nuances principalmente por meio de um humor rasgado, explorando a sensualidade do corpo, questões sexuais (muitas vezes através de conotações), bem como a construção de tipos brasileiros, sem temer o exagero.

 A música de Roberto Menescal e Jorge Ben Jor que, a princípio, ressaltava toda a descrição acima, torna-se, por diversas vezes, uma espécie de muleta do filme, um artifício narrativo que, de certa forma, ressalta a falta de ritmo do filme, os seus desencontros estéticos que denotam pretensões maiores de Diegues em relação a um objeto que se apresenta muito mais simples. Xica da Silva é, por diversas vezes, o exagero crasso perdido em sua maneira de narrar por vezes enfadonha.

 Esse é, em grande parte, o problema maior do filme de Diegues, que está em suas tentativas de escapar dessa sua vocação popular, de querer dar sempre um pulo a mais, de se elaborar, de buscar um plano ou outro mais ousado, que, ao contrário de suas pretensões, acaba por destoar do todo. O que podemos perceber são planos meio fora do lugar, em um filme que se prepara sempre para o desbunde, mas tem, ao mesmo tempo, um certo temor de assumi-lo, preferindo-se colocar em um outro patamar, acima de seu próprio objeto.

 Xica da Silva é uma espécie de personagem-fato, retrato de um certo Brasil desbocado, pretensioso, tinhoso. O filme é esse retrato um pouco embaçado, descuidado. Até mesmo para se narrar o carnavalesco é preciso se definir. A escrava-rainha era a própria contradição, enquanto o longa de Diegues é, em muitos momentos, desorientado frente às suas opções, ainda que interessante e estranhamente vivo dentro de suas próprias limitações.

*Visto na 4ª CineOP.

 

 

Filmes Citados:
Xica da Silva (idem, 1976 – Cacá Diegues)

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