À Deriva, de Heitor Dhália

A deriva

por Leonardo Amaral

O Festival de Cannes pode trazer momentos realmente contrastantes: com diferença de uma hora entre uma sessão e outra, um cinema que se constrói autoralmente, com uma visão de cinema, uma visão de mundo, como o de Elia Suleiman, seguido por uma repetição de formas, um filme sem identidade, sem presença, como o de Heitor Dhália. É difícil até mesmo entender a que tempo À Deriva está ligado, a quem ele quer dizer algo. As questões trazidas pelo filme são tão comuns e a abordagem é tão banal que fica dificil classificá-lo como alguma coisa. Assim como em O Cheiro do Ralo, o espectador, com o perdão do trocadilho, é deixado à deriva, não existe um tempo para ele, o que vemos é uma sucessão de cenas, cortes rápidos, descompassados, que, em determinado momento, torna complicado até mesmo nos localizarmos dentro da diegese.

Para resolver esse problema (ou problemas, como os de montagem, de execução), À Deriva recorre, a todo momento, à autoexplicação: o filme fala de traição, logo, o tema do livro escrito pelo personagem de Vincent Cassel vai explicar aquilo que as imagens não dão conta, e esse é só um dos vários problemas. Roteiro, aliás, com incríveis diálogos, como o de Filipa e o namoradinho na beira da praia, pouco antes de se beijarem. É impossível acreditar num filme em que, num flerte entre dois adolescentes o rapaz diz à moça que “é bela a geografia do local”. Para quem se propõe a construir um drama familiar, um filme sobre descobrimentos, o mínimo exigido é o de fazer com que o espectador creia naquilo que é narrado e isso fica comprometido quando a amante de Cassel é uma mulher que coloca um batom vermelho e se veste como quem vai a lugar nenhum. Para uma fotografia de plástico, um filme também de plástico.

A constatação é a de que Lucrecia Martel faz mal como referência. Selton Mello já havia comprovado isso em Feliz Natal, e agora Heitor Dhália ajuda a corroborar. A simples cópia sempre será horrível frente ao original. Os enquadramentos martelianos de À Deriva soam todos não-orgânicos e de mau gosto. Praticamente nenhum dos personagens do longa é verossímil, são todos, quase sempre, meros bonecos que discutem de maneira clichê dilemas burgueses apresentados aqui de maneira condizente: pequeno-burguesa. Não é grudar a câmera nos personagens, estilizar uma fotografia em cabelo ao vento ou colocar planos em que o sol se reflete nas águas do mar que vão construir um cinema pretensamente intimista.

Um filme se constrói em sua direção, a montagem já se dá nesse momento. Parece, em alguns momentos, que ficou meio fora de moda falar de mise en scène (falo isso após algumas reações posteriores ao filme aqui em Cannes). Saber onde colocar a câmera, pensar o enquadramento e o que nele está colocado, deixar com que os elementos ali digam algo, dar tempo para que a ambiguidade da imagem apareça; bem, falar de André Bazin está virando, em certos momentos, utopia. Talvez, mas há sempre uma esperança ao se ver, por exemplo, Elia Suleiman. Realmente um dia de contrastes.  

Filmes Citados:
À Deriva (idem, 2009 – Heitor Dhália)
O Cheiro do Ralo (idem, 2007 – Heitor Dhália)
Feliz Natal (idem, 2008 – Selton Mello)

 

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