

por Leonardo Amaral
Eduardo Valente, em seus curta-metragens, filma, sobretudo, personagens. Há, evidentemente, uma relação do espaço, mas o que realmente importa são essas pessoas dentro de um lugar. Pai e filha conformados por um microcosmo em Um Sol Alaranjado, a moça gordinha de Castanho e sua relação com os outros corpos – em dois momentos, na praia, posteriormente, no spa. Em seu primeiro longa-metragem, essa relação continua, mas agora é expandida para um universo grande, são pessoas e a cidade. No Meu Lugar, como o próprio nome diz, é o anseio pelo encontro de uma posição nesse espaço. Para alguns daqueles corpos isso é uma possibilidade, para outros, uma tentativa. O filme é, de alguma forma, essa busca pelo próprio lugar: desde o policial, afastado da corporação após uma missão mal executada, ao jovem da favela, que se vê condicionado, por vários motivos, à sua condição local. O passeio da câmera pela cidade já diz desse deslocamento, uma tentativa de fixar-se e a impossibilidade disso.
Se No Meu Lugar investiga as nuances dessas buscas de local, a câmera não tem as possibilidades do enquadramento fixo de Um Sol Alaranjado ou em travellings como os de Castanho, a câmera, impulsionada por suas questões, é obrigada a ir para a mão, e, de alguma forma, isso traz uma mudança estética que implica em diversas outras variações. Queira-se ou não, o formato multiplot, essa estética mais urgente trazem consigo uma presença mais forte da realidade, que, por sua vez (e a meu ver), retira uma característica anterior dos curta-metragens: uma ironia carinhosa em relação aos personagens e uma visão bem particular do mundo possibilitada pelos filmes. No Meu Lugar convoca um sentido mais universal e tenta lidar, da melhor maneira, com isso. As histórias se ligam por um tiro, a partir daí o que temos são as implicações do ato. Há, sem sombra de dúvida, uma mudança de visão do diretor: por mais que a câmera esteja no rosto, quase no olhar do personagem, ela ainda reclama um todo. Os personagens estão em função de um todo, e se o todo, por vezes, não marcha, essas peças tornam-se exatamente isso: peças.
Há, claro, uma grande diferença de execução entre um processo de um curta-metragem e um longa, não somente em questões organizacionais, mas, sobretudo, da maneira de se lidar com aquilo que é narrado. No curta, uma ação tem quase uma consequência direta, ao passo que, num filme com maior duração, questões devem ser mais trabalhadas. Mas a relação-personagem, essa, quase sempre, não muda muito. E os curtas de Eduardo Valente, como já foi dito, são, acima de tudo, esses corpos dentro de seus cotidianos particulares. E é exatamente por lidar com esses universos próprios que o diretor tem possibilidades de levar esse cotidiano à, por exemplo, consequências quase fantásticas como as de Um Sol Alaranjado ou brincar, como bem quiser, com o musical-fantasia de Castanho. No Meu Lugar está preso por seu entorno, é conformado por ele. “Escrevas sobre a sua aldeia, e sejas universal”. A frase de Tolstói não diz diretamente de No Meu Lugar, mas pode ser vista nos melhores momentos de No Meu Lugar: quando a câmera se acenta, pára, deixa os personagens existirem, como na conversa do policial com o namorado de sua filha (ou com ela, na praia à noite), de Beto com o tio. Provavelmente, durante esses momentos, o filme seja mais universal do que quando se abre para a cidade e deixa seus personagens apenas soltos dentro dela.
Filmes Citados:
No Meu Lugar (idem, 2009 – Eduardo Valente)
Um Sol Alaranjado (idem, 2001 – Eduardo Valente)
Castanho (idem, 2002 – Eduardo Valente)
* Leia também texto de Marcelo Miranda sobre o filme: aqui.