

por Leonardo Amaral
A seleção de curtas para a competição em Cannes tem, em geral, um tipo de exploração do espaço e do som, com alguns trabalhos bastante interessantes. Grosso modo, narrativas, sem, com uma ou outra exceção, proposições de narração muito radicais, mas com boas tentativas de experimentar a imagem e som.
Missen, curta holandês de Jochem De Vries, mostra mãe e filha que precisam chegar até a escola para que a garotinha participe de uma excursão ao parque. O filme é o trajeto. Exploração de impressões, com uma câmera que se coloca na altura dos olhos da criança e vai, pouco a pouco, acompanhando uma mudança de olhar. No início, um enquadramento e um ritmo condizentes à expectativa de menininha. Após a perda do ônibus e o retorno para casa, um investimento em uma montagem mais lenta, contemplativa. O curta-metragem de De Vries parte de uma ideia simples e se resolve bem exatamente por, em momento algum, querer se complicar dentro da narrativa que se propõe a apresentar.
Arena tem um dos mais interessantes enquadramentos da competição. Mauro é um tatuador que tem a casa invadida por dois adolescentes insatisfeitos que lhe agridem e o roubam. João Salaviza trabalha, a partir daí, a reação de Mauro. Mas, para construí-la, investe em um minimalismo, tanto percebido nos enquadramentos quanto no ritmo. O tatuador parte para pegar os dois garotos e seu dinheiro de volta. Chegamos ao enquadramento citado. Vemos dois prédios e duas passarelas que unem os edifícios, uma embaixo, outra acima. O enquadramento é fixo, o plano, geral. Os garotos estão abaixo, Mauro acima. Ele desce, um dos meliantes foge, mas ele consegue capturar o outro, que estava em uma bicicleta. Sem qualquer corte ou aproximação, vemos a bicicleta ser jogada do alto, para, em seguida, assistirmos ao menino levar alguns tapas. Uma economia narrativa e uma exploração da mise en scène que dizem bastante de como esse curta português prima por sua eficiência na utilização de imagem e montagem.
Klusums, traduzido para o português, quer dizer silêncio. O filme de Laila Pakalnina é exatamente isso, uma brincadeira irônica com o som que se dá a partir da maneira como ele enquadra e do tipo de investimento no som que ela faz. Uma velhinha que trabalha em um museu passa pela rua, vira-se para a câmera e faz um sinal de silêncio, algo que vai repetir durante todo o curta. A câmera, em uma grua, sobe e mostra o caos causado pelo barulho. A partir de então, adentramos ao museu em uma mistura estranhíssima entre enquadramentos em dutch (levemente tombados) e câmeras subjetivas, que perseguem uma personagem enquadrando lateralmente a velhinha e, em um travelling, percorre os meandros do local. Junto a isso, uma utilização anti-natural do som, supraexagerado, que busca sempre a sensação do espectador. Ao final, como no término de uma piada, a velhinha repete a ação do começo.
Rumbo a Peor investe numa espécie de estética do absurdo. Dois homens, de shorts curtos e não muito convencionais nos dias de hoje para a prática do futebol, voltam de uma pelada. Durante todo o curta de Alex Brendemühl, exatamente nada acontece, somente situações não necessariamente conectadas, fazendo com que os dois personagens encontrem uma prostituta na estrada, partam com ela para o meio de um bosque, encontrem um barco e fujam, sem que espectador, em momento algum, seja informado do que necessariamente se passa. Isso pouco interessa, pois está na forma, está no processo o desenvolvimento do filme. Talvez seja o curta que mais invista na imagem para sua construção narrativa.
Lars og Peter, The Six Dollar Fifty Man e Ciao Mama talvez sejam os três curtas que tenham um diálogo mais próximo, exatamente por terem como tema as relações entre adolescentes e adultos, por investirem nesse tipo de filme que se coloca quase sempre sob a ótica dos mais jovens. Os dois primeiros aderem-se fielmente a uma estética indie de câmera na mão, cool music, planos próximos ao rosto e relato dos dilemas da idade. A impressão é a de, quase sempre, estar vendo um filme já feito antes, salvos alguns casos, que sempre surpreendem. O caso desses talvez seja o de Ciao Mama, que se constrói todo por meio de uma câmera no rosto, em enquadramentos fechados, que retratam uma briga entre mãe e filha, com a última fugindo de casa. Até então tudo normal, se não fossem as nuances desse curta-metragem, que surpreende sempre no jogo de perspectivas. Quando uma das personagens fala, a câmera mostra a reação da outra, mas, quando esperamos a mesma situação quando se tem a tomada da palavra por um personagem diferente, a câmera continua a se concentrar no rosto de quem fala. O curta-metragem de Goran Odvorcic é dos melhores da competição.
Outro que poderia estar junto a Ciao Mama é a animação francesa L’homme à la Gordini. Homens que caminham pelas ruas sem calça, apenas com uma blusa,um super-herói que somente utiliza as partes de baixo, que deixa o peito á mostra. Rivais nas cores, temos os “ousados” azuis que se conflitam com os conservadores “alaranjados”, que possuem até mesmo um exército. O curta-metragem de Jean-Christophe Lie investe, até as últimas consequências, em um surrealismo que a animação permite ocorrer de maneira ainda mais natural. Os acordes de guitarra frenéticos, e a sequência final dão conta de como esse curta não se prende a nada.
Por fim, o último a ser exibido, o curta inglês After Tomorrow, de Emma Sullivan. O filme investe num tipo de thriller psicológico que não se vê tanto no universo dos curta-metragens, apesar de sempre aparecerem, vez outra, propostas nesse sentido. Apesar de não manter o mesmo ritmo durante todo o tempo, After Tomorrow lida bem com o gênero, quase sempre bastante difícil de se construir em pouco tempo, por tudo aquilo que necessita em construção de expectativas, da própria narrativa.
Filmes Citados:
Missen (idem, 2009 – Jochem De Vries)
Arena (idem, 2009 – João Salaviza)
Klusums (idem, 2009 – Laila Pakalnina)
Rumbo a peor (idem, 2009 – Alex Brendemühl)
Lars og Peter (idem, 2009 – Daniel Borgman)
L’homme â la Gordini (idem, 2009 – Jean-Christophe Lie)
The six dollar fifty man (idem, 2009 – Mark Albiston & Louis Sutherland)
Ciao mama (idem, 2009 – Goran Odvorcic)
After tomorrow (idem, 2009 – Emma Sullivan)