

por Leonardo Amaral
O período de governo de Ceaucescu na Romênia sem dúvidas não deixa muitas saudades, por razões óbvias. No entanto, olhar para trás, procurar entender a época e, melhor, fazer tal retomada de uma maneira bem humorada, provavelmente seja uma das melhores formas de se entender ou de recriar um momento histórico. Amintiri din epoca de aur é, na verdade, cinco brincadeiras que tentam reviver e revitalizar algumas lendas que existiram durante o regime comunista no país. E o retrato realizado por cinco jovens diretores (Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Cristian Mungiu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru) vai desde pessoas presas a um carrossel, uma foto mal tirada do ditador e até dúvidas de como matar um porco para o Natal, vender ovos do Estado, ou até mesmo vender garrafas de maneira duvidosa. Algumas das histórias são, evidentemente, mais bem construídas que outras, mas o filme cai no grande problema existente para esse formato de vários curtas em um mesmo tema: a falta de ritmo, mesclado à necessidade muitas vezes tênue para unir os curtas (as únicas conexões aqui são período, lugar e humor). Normalmente funcionariam isolados ou, pelo menos assim, não influenciariam um em relação ao outro.
Por questões de tempo, e também de preferência, prefiro fazer uma pequena abordagem dos dois curtas que me chamaram mais atenção: o do porco e o dos jovens que vendem garrafas para comprar um carro Dacia. Uma família precisa matar um porco para o Natal, mas não pode fazer muito barulho por portarem muita carne, algo não muito bem visto pelo regime comunista. Decidem, por ideia do jovem filho, usar estratégia não muito convencional: utilizar o gás de cozinha. O que segue é uma sucessão de acontecimentos que buscam um tipo de humor negro existente, por exemplo, em Parente é Serpente, de Mario Monicelli (coincidentemente, ambos ocorrem no período natalino). E o filme talvez seja aquele que melhor faz uso do humor de todo o conjunto (juntamente, pode-se dizer, do episódio em que uma cidade se organiza para receber autoridades comunistas, e os moradores acabam todos presos num carrossel).
Uma moça conhece, ao acaso, um jovem golpista que vai à casa das pessoas se dizendo agente do Ministério da Higiene com o intuito de conseguir delas garrafas de vidro a serem vendidas em um mercado negro. Após uma sessão de Bonny e Clyde, os dois se juntam, como o casal do filme de Arthur Penn, para dar pequenos golpes pela cidade. O curta de Cristian Mungiu é aquele com o maior poder de síntese dos cinco. Em cerca de trinta minutos, ele consegue construir uma narrativa com contornos improváveis e surpreendentes. E o final do filme só é inimaginável e muito bem sacado graças à condução de Mungiu, a uma utilização econômica e precisa de planos que leva a garota, que abre a geladeira e não encontra muita comida, ao seu destino surpreendente. Em um dos planos, a garota está no canto da tela e vê, sem perspectiva, toda uma expectativa prestes a ruir. Ao final, a frase: “alguns romenos precisavam vender garrafas para comprar um Dacia”. Talvez essa, mais a imagem montada de Ceaucescu no jornal, seja uma das boas maneiras de se lidar com o passado. Se não, venda garrafas.
Filmes citados:
Amintiri din epoca de aur (idem, 2009 - Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Cristian Mungiu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru)
Parente é serpente (Parenti serpenti, 1993 – Mario Monicelli)