Les herbes folles, de Alain Resnais

resnais

por Leonardo Amaral


Ao falar de Marco Bellocchio, Eduardo Valente, na cobertura da revista Cinética, fez uma comparação a Ronaldo Fenômeno, ao afirmar o diretor italiano como um homem no meio de meninos. Pois bem: novamente o futebol, e mais uma vez Ronaldo, que, após marcar seus primeiros gols pelo Corinthians, afirmou se sentir um menino, tamanha a vontade de jogar (bem). É com essa impressão que se pode sair após a exibição de Les Herbes Folles, de Alain Resnais. Ofereçam a câmera ao velhinho e ele vai mostrar que não quer fazer filmes com idosos internados, entubados, quase a morrer no hospital. E já que o parágrafo é de frases, mais outra, de Joel Coen, que certa vez disse que o cinema não tem lugar para pessoas moribundas em uma cama. São, é bem verdade, frases de efeito, que carregam um posicionamento político, mas, mesmo assim, não deixam de dizer um pouco sobre as várias funções e orientações do cinema. A grama de Resnais é bem mais maluca que o nome de seu filme.

 

Assim como em Medos Privados em Lugares Públicos (como também em muitas outras obras), Resnais filma o corpo só, o homem solitário. O cotidiano é rico em nuances e pode ser construído sob o ponto de vista dessas. Se no filme anterior as questões possuem um cunho mais existencial, em Les Herbes Folles Resnais manda isso às favas, brinca com os pontos de vista e cria um nouveau romain cinematográfico que Alain Robbe-Grillet (parceiro de Resnais, por exemplo, em O Ano Passado em Marienbad) jamais deve ter sonhado ser possível.

 

É muito bom ver uma câmera solta, livre, como a de Resnais. A narração em off que acompanha quase todo o filme, além das presenças de André Dussollieur e Sabine Azema, são, juntamente com uma mise en scène libertária e sem compromissos, os diversos comentários sobre as cidades e sobre as pessoas. Les Herbes Folles é sua perseguição aos sapatos de Sabine Azema, seus passeios do subúrbio ao centro do país, seu voo de avião, e, em especial, sua preocupação em propor nada. O diretor não faz um filme de inovações, de discussão de imagens, sobre o próprio cinema, muito menos quer chocar por chocar: sua única preocupação, deixar com que as imagens fluam na tela, ao som de um cool jazz de Mark Snow e a serviço de seus personagens. Em momentos do festival em que se discute a imagem (Independencia, Los Abrazos Rotos), o choque (Kinatay e Antichrist), em Resnais o que temos seja talvez a melhor mise en scène – em sua definição mais simples, do ato de colocar em cena – até agora em Cannes. Um velho garoto, que, na entrevista coletiva para imprensa, revelou que, além das paixões pela cidade, pelo amor, pelas mulheres, também está apaixonado pela bicicleta. Les Herbes Folles é esse belo passeio de bicicleta (ou de avião, como queiram).

 

 

Filmes citados:

 

Les herbes folles (idem, 2009 – Alain Resnais)

Ano passado em Marienbad (L’année derniere à Marienbad, 1961 – Alain Resnais)

Medos privados em lugares públicos (Coeurs, 2006 – Alain Resnais)

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