Los Abrazos Rotos, de Pedro Almodóvar: obsessão e imagem

abrazos

 

por Leonardo Amaral

Em Os Mil Olhos de Dr. Mabuse, o personagem controlador instala uma rede de televisões cujo objetivo é o de vigiar os clientes de um hotel. Vigilância é, a primeira vista, a principal discussão dentro do filme de Fritz Lang, mas, como não poderia deixar de ser, há também uma forte presença da imagem, de como esta pode influir na vida humana. Lang fala do fascínio do homem pela imagem e de ela, antes mesmo de qualquer outra forma de representação, pode conformar a vida de tal maneira que se torna impossível, principalmente no mundo de hoje, a desvinculação ser-imagem. Nós somos imagens, e aquele que não se vincula ao conteúdo imagético dos tempos atuais provavelmente é um homem cego.

Douglas Sirk, em Magnífica Obsessão, filma o amor como forma de (auto)destruição. Já em Imitação da Vida, procura no passado as raízes para os problemas obsessivos do futuro, além de embaralhar os limites entre a vida real e a pública. Não por menos, o tipo de melodrama de Sirk é um dos espelhos para Pedro Almodóvar. “Existe uma distância muito pequena entre a alta arte e o drama exagerado, e o drama exagerado que contém loucura talvez seja o melhor tipo de alta arte”. A frase do diretor alemão é uma definição para sua obra, e também para a de Almodóvar e, em especial, para este seu novo filme. A obra de Sirk se constrói pela obsessão e pela música, exatamente o que vai fazer o cineasta espanhol em Los Abrazos Rotos. 

A combinação em Los Abrazos Rotos com Lang e Sirk vem dessa ligação, que, em um primeiro momento, seria pouco provável entre os dois cineastas alemães. De Sirk, mais uma vez, vem a encenação, a maneira de colocar o ator em cena, de fazer de Penélope Cruz a todo instante um objeto tensor, arrebatador, para colá-lo a uma imagem. Já o poderio da câmera do filme vem de Lang, imagem que diz do outro e também do cinema. E, após a frase final de Lluis Homar (ator do filme de Almodóvar), fica evidente que o cinema é o principal motivador dentro do filme e, por conta dele, durante todo o tempo, os personagens agem de acordo com o que ele impõe. Personagens obcecados pela imagem, até mesmo quando não podem vê-la. 
 

Filmes citados:

Los Abrazos Rotos (idem, 2009 – Pedro Almodóvar)

Magnífica Obsessão (Magnificent Obsession, 1954 – Douglas Sirk)

Imitação da Vida (Imitation of Life, 1959 – Douglas Sirk)

Os Mil Olhos do Dr. Mabuse (Die 1000 Augen des Dr Mabuse, 1960 – Fritz Lang)

 

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