

por Leonardo Amaral
Johnny Halliday é um Charles Bronson francês, que como um bom gaulês, prepara um bom jantar para os três chineses aos quais paga para vingarem a família de sua filha. Vengeance é um western de Hong Kong, sem cavalos e rochedos, mas com carros, placas luminosas, prédios e com enquadramentos leonianos de coldre e face, mas ainda com a variação entre agilidade e expressões temporais tão caras ao cinema de Johnnie To. Vengeance não é, por exemplo, Eleição, e nem Exiled, mas ainda assim é o espetáculo.
Halliday, como comentou Kléber Mendonça Filho pouco após a exibição, parece um boneco. Bom que o seja, o grande mérito do filme talvez seja essa vocação para trabalhar, ao máximo (por vezes até exageradamente, como o final um pouco extendido), as situações, os quadros. Vengeance não dá muito tempo para as coisas se desenvolverem, salvo um pouco seu início, com flashbacks e outros elementos de caráter mais narrativo. As ações valem mais do que o próprio todo, um risco, que mesmo afetando o ritmo de Vengeance, acaba também por se mostrar um bom divertimento, e, provavelmente, seja essa a melhor definição para o filme.
Johnnie To busca no herói do cinema clássico, o forasteiro, que propõe vingança, seu mote para o que ganha a tela. O diretor aposta também nos triângulos, nas tríades: três assassinos da família, três matadores profissionais, os duelos que ganham tal formato. A narrativa, clássica: um acontecimento que faz explodir a vingança, personagens que se duelam, a caminhada do herói, o confronto (conflito) final. E são vários durante o filme, claro, com a roupagem característica do cinema de To: câmeras lentas, humor sarcástico, pequenas gags inseridas ao longo de ações: durante troca de tiros, um dos atiradores pede um cigarro. A última delas, no final, obviamente não revelado aqui, mas que tem um pouco da forma cinematográfica de To para olhar para o mundo e fazer com que o cinema o recrie como o disco de frisby que voa sobre as cabeças de Halliday e sua gangue em uma cena de Vengeance.
“O cinema é minha loja de brinquedos”, disse Orson Welles. Johnnie To brinca com o cinema em Vengeance, e em uma brincadeira, por vezes é permitido o exagero, estético inclusive. E se é para ir logo para a loja de brinquedos, por que não uma em um velho oeste localizado em Hong Kong, cujo justiceiro é um cantor da música popular francesa?
Filmes Citados:
Vengeance (idem, 2009/Johnnie To)
Eleição (Election, 2006/Johnnie To)
Exiled (idem, 2002/Johnnie To)