

por Leonardo Amaral
A câmera de Mia Hansen-Love sempre está no outro ou na possível visão de outrem, na sua presença e ausência física, na vida que se opera diante da lente. O cenário é Paris: monumentos e corpos – tanto que os créditos iniciais e finais se passam, em passeio de carro, pelas ruas parisienses com ou sem pessoas: atestados dessas presenças e ausências no cotidiano que a diretora apresenta. Um filme com uma capacidade de descolar o olhar para aquilo que sempre escapa: o homem atrás de suas camadas, Gregoire Canvel, produtor bem-sucedido, com vários projetos em ação, com uma bela família: Hansen-Love vai em busca do homem, para tanto, filma corpos-pessoas, ou melhor, capta suas representações em cada cena.
Na ponte próxima à Biblioteca François Mitterant, o corpo ainda pode sonhar, ainda tem o que dizer. Após, são os rostos que vão operar em cena. Mia Hansen-Love já disse que François Truffaut é uma de suas influências, no entanto, provavelmente seu cinema se centre ainda mais na representação do outro do que o do crítico-cineasta, que filmava mais uma persona em suas interações. Um filme que não se opera com câmeras somente subjetivas e que tem uma grande capacidade de perceber o entorno e tudo aquilo que nele se insere. A partir disso e da maneira como a diretora realiza seu longa (como coloca em cena seus personagens) é possivel conferir a Le père de mes enfants um caráter bastante personalista, por tudo aquilo que ele se propõe a narrar: a história de uma família como também a de se fazer cinema, e toda a relação (ou não) entre as duas coisas dentro da diegese. A trajetória de Gregoire durante o filme é o grande exemplo disso, como visto em suas várias formas de presença dentro da obra.
Com certeza um dos grandes filmes do festival, por tudo o que tem a dizer sobre relações, sejam profissionais, familiares, com a cidade, de criação, destruição. Não é todo dia que se pode assistir a um filme no qual a câmera diz tanto (sobre si mesma e sobre o outro, ou sobre aquilo que ele representa), em suas formas diretas e indiretas. Le père de mes enfants precisa (e deve ter) de uma análise com mais calma, fora da correria dos festivais. Acima de tudo, um filme que precisa ser visto.
Filmes Citados:
Le père de mes enfants (idem, 2009 – Mia Hansen-Love)