

por Leonardo Amaral
Já são três os filmes sul-coreanos, contando com o vampiro-padre de Park Chan-wook. Três formas cinematográficas bastante diversas, mas que mostram um momento mais do que especial da produção de cinema no país.
Hoje (16 de maio), mais dois filmes, Mother de Bong Joon Ho e Like you know it all, de Hong Sang-soo. Enquanto o primeiro, através da articulação de planos, mostra o cinema como construção, principalmente dentro do gênero do suspense, o segundo recusa a decupagem para falar do próprio cinema.
Sang-soo talvez faça hoje o melhor tipo de cinema que fala sobre si mesmo, que expõe e lança questões sobre o processo, sobre a própria criação, de uma maneira ao mesmo tempo irônica e verdadeira. Não por menos os vários planos sequências seráo responsáveis por essa ‘verdade’ sang-sooniana. Ku é um cineasta que vai ser júri de um festival, mas pensa somente em suas realizações. Nesse novo trabalho, Sang-soo se expõe ainda mais, coloca em evidência o próprio know-how do ato de realizar, questiona-o, como no momento em que estão sentados em uma mesa três homens e duas mulheres: Ku está com o professor que o incentivou a fazer cinema ao invés da pintura, em decorrência da falta de talento. Os diálogos de Sang-soo, aparentemente inocentes dentro da mise en scène, são dotados de grande ironia, ainda mais conveniados com os movimentos de câmera feitos pelo diretor: em dado momento em que um casal tenta se restabelecer após uma traição, o cineasta prefere sair dos corpos dos atores para ir a uma pequena centopéia que se locomove no chão.
Ku afirma possuir talento e fazer filmes baratos, além de garantir que esses são capazes de ter um grande público. Em um plano, uma jovem diz ao diretor que ele é talentoso e que ela já viu um de seus filmes por duas vezes. Após este momento, em uma discussão da obra do cineasta, ela o faz incorrer na seguinte dúvida: o porquê de ele fazer filmes difíceis, que ninguém entende (fato negado por Ku). O cinema tem uma dimensão muito maior do que essa primeira leitura de dificuldades, de objetivos, é um ato, acima de tudo, de construção, uma relação objeto-espectador. Hong Sang-soo não possui ilusões sobre arte e vida, sabe que não deixam de ser algumas das necessidades humanas. Até mesmo o amor é colocado em questão sob essa ótica, tanto que, em uma cena em que vemos o fim de um relacionamento, Ku é perguntado se esse ocorrido pode estar futuramente em um de seus filmes, e sua resposta é uma outra questão: por que não? Não deixar de ser o que Sang-soo faz durante boa parte de Like you know it all, colocar em cena, e deixar com que o plano diga por si só.
Se Sang-soo faz esse cinema em que a própria vida é posta como um conjunto de dúvidas e negações, Bong Joon Ho duvida e brinca com a própria arte cinematográfica. A câmera de Joon Ho capta seus personagens ao centro da tela, por vezes de frente, retira-a de sua posição friz-languiana (câmera onisciente, por vezes onipotente) para instaurá-la dentro de uma mise en scène anti-convencional, que abandona um tipo de dramatização em favor de um estranhamento. Ao mesmo tempo, revitaliza o plano detalhe, menos narrativo e mais tensor. Quando a mãe corta trigo na rústica máquina e seu filho é atropelado na rua, Bong Joon Ho trabalha um tempo anti-narrativo em favor da tensão. O dedo da mãe está prestes a ser cortado, pois ela, desatenta, observa o filho na rua durante o trabalho. No interior da casa, a expectativa, fora a normalidade: o espectador sequer imagina o que pode vir a ocorrer, nem os personagens: uma espécie de Hitchcock às avessas.
Em outra cena, a Mãe vai tentar recuperar o taco de golfe que supostamente teria matado uma jovem, fato que colocara seu rebento na prisão. Ela está em um armário, enquanto o jovem dono da casa dorme sobre a cama com o braço extentido, com a mão prestes a tocar o chão, sendo que esse apresenta várias garrafas de água. A senhora precisa passar pelos obstáculos - Joon Ho estabelece a tensão: a progenitora deixa com que uma das garrafas caia, primeira quebra de expectativa, pois o jovem que dorme não acorda. Mas o diretor vai além, deixar com que a água escorra e atinja o dedo do personagem. Ainda o sono, ironia fina na construção de ritmo e de enquadramento.
Dois cinemas antagônicos, porém, complementares: Sang-soo parte do todo para falar do micro, ao passo que Joon Ho busca no detalhe a construção do macro.
Filmes Citados:
Like you know it all (Jal Aljido Mot Hamyeonsuh, 2009/Hong Sang-soo)
Mother (idem, 2009/Bong Joon Ho)