Ne Change Rien, de Pedro Costa

Ne Change Rien

 

por Leonardo Amaral

Jeanne Balibar – ou melhor, o contorno do corpo da atriz propiciado pela luz do cinema, a impressão na película. Sombra e voz, Pedro Costa está em busca do processo. Após o filme, em pequena coletiva, o diretor disse que o filme tem toda uma história, baseado em Carrosse d’or e na obra do compositor Offenbach. Para quem infelizmente não viu Carrosse d’or (como eu), Ne change rien - nada muda.

Em um primeiro momento, Ne change rien pode ser, em tese, construído na relação corpo-voz de Balibar, no extracampo e no processo. Jeanne Balibar é filmada em sua ascese musical, em seu limite físico durante o ensaio musical. Pedro Costa busca na rigidez do enquadramento a dureza do momento. A explosão vem na voz, na expressão, recortada pela luz e intensificada pelo preto-e-branco. A exaustão do quadro fixo é o processo doloroso da criação, o extravasar vem na intensidade e ritmo da música que sai, em muitos momentos, de um fora de campo lateral para ganhar o plano. Repetição, o que leva Balibar a um “oh putain!”, motivado por um estado de cansaço, o que também é um instante de fuga do espectador. Após o processo, o espetáculo: Jeanne Balibar e a luz se confundem, talvez por serem, no filme, suplementares.

Pedro Costa coloca em contraplano duas velhas senhoras em um café em Tóquio, numa inversão da função espectadora: estamos de frente para as duas enquanto elas fumam, ao mesmo tempo em que a melodia é presente. O espectador encontra seu espelho, e Pedro Costa oferece uma terceira perspectiva, a ópera de Offenbach filmada em seu background. O pianista toca de costas para o público, o olhar-espectador está onde, teoricamente, não deveria estar. Nada aparentemente continua a mudar, somente a perspectiva.

O filme nasce de pequenas gravações de Jeanne Balibar em apresentações musicais, bem como de uma parceria com o operador de som Philippe Morel, morto antes do fim das filmagens. A partir do material bruto e de algumas inserções, Costa terminou um experimento de luz e som que, visto em projeção, fazem um sentido imenso. O movimento está nesse ritmo, na pequena variação de abertura do diafragma, de Balibar que foge e retorna ao foco de luz e ao som e à música, presentes até nos momentos de silêncio, em que instrumentos (suas sombras) são capturados dentro do pequeno estúdio.

Um filme que demanda muito mais que primeiras impressões dentro de toda uma correria de festivais. Assisti-lo várias vezes seria um exercício prazeroso. Melhor que escrever sobre Ne change rien certamente é vê-lo.

Filmes Citados:
Ne change rien (idem, 2009 – Pedro Costa)
Carrosse d’or (idem, 1936 – Jean Renoir)

 

 

por Leonardo Amaral

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