
por Leonardo Amaral

“A diferença entre Tetro e O poderoso chefão é que não existe ninguém degolado, enforcado ou assassinado por um membro da família”. Foi mais ou menos assim que Francis Ford Coppola respondeu a uma pergunta sobre semelhança entre os dois filmes logo após a exibição de seu recente trabalho. A família mais uma vez é colocada em cena pelo diretor, mas, no entanto, agora o que vemos pode talvez ser o inverso da trilogia da família Corleone: em Tetro a ruína pode trazer um tipo de redenção, mesmo que essa seja ambígua.
“Tudo que estava na tela não aconteceu, mas é tudo verdade”. Coppola viajou a Argentina para filmar em digital um projeto intímo e instrospectivo: há certos momentos de Tetro em que o próprio enquadramento diz diretamente de uma relação bastante particular do criador e seu objeto. Por diversas vezes há uma câmera baixa que coloca em primeiro plano uma ação (como, por exemplo, quando Alden Ehrenreich brinca com o cãozinho enquanto Vincent Gallo está ao fundo e vemos apenas seus pés) para deixar nebulosa uma outra. Tetro se dirige, sempre quando pode, ao desconhecido. Uma opção neo-barroca, uma utilização de um p&b que se mescla a uma variação de cores – plasticidade recursiva na obra do cineasta a semelhança de The cotton club - que, por diversas vezes, confunde uma ação teatral com o onírico ou o reminiscente.
Um projeto pessoal, independente, filmado em outro país como possibilidade de uma imersão ainda maior. Estar fora do seu lugar não deixa de ser uma tentativa de distanciamento. Talvez seja esse, a primeira vista, o grande dilema existente no filme: projetar o misterioso e o ambíguo, mas sem deixar transparecer uma necessidade (ou melhor, uma ansiedade) em resolver todos fantasmas do passado. Durante uma peça de teatro, o personagem Tetro, de Vincent Gallo, faz a iluminação e está atrás do canhão de luz. Em dado momento, ele diz ser a luz a verdade; em outro, Tetro diz ao irmão para não olhar para a luz (que vem dos carros). As duas falas, de certa forma, falam diretamente de um filme que se constrói na luz, em suas variações de cores e efeitos, crê nessa verdade, mas não de maneira suficiente a poder olhá-la diretamente.
Filmes citados:
Tetro (idem, 2009 – Francis Ford Coppola)
O poderoso chefão I (The godfather I, 1972 – Francis Ford Coppola)
O poderoso chefão II (The godfather II, 1974 – Francis Ford Coppola)
O poderoso chefão III (The godfather III, 1990 – Francis Ford Coppola)
The cotton club (idem, 1983 – Francis Ford Coppola)