Cine PE – dia 5: “Alô Alô Terezinha!”, de Nelson Hoineff

por Marcelo Miranda

 

Imagine uma sala de exibição com aproximadamente 3.000 pessoas gritando, aplaudindo e assobiando para o que veem na tela. Foi o que se testemunhou em Alô Alô Terezinha!, documentário de Nelson Hoineff cujo mote é a figura do Chacrinha. Bem longe de ser biográfico, o filme utiliza o grotesco do apresentador para resgatar hoje algumas figuras ligadas a ele – como as chacretes, os antigos “calouros” e cantores que se projetaram no programa.

 

O público embarcou completamente na viagem de Hoineff. Riu e reagiu a cada nova cena, a cada depoimento, a cada imagem do passado que mostravam as várias fases de Abelardo Barbosa enquanto transitou nas TVs Tupi, Bandeirantes e Globo. O mecanismo de não se tratar de um filme sobre o Chacrinha, mas, sim, feito a partir dele, pareceu justificar aos espectadores as intervenções do realizador no verdadeiro circo de horrores que vai se desenhando.

 

É nessa ideia de “circo de horrores” que o filme deverá encontrar as maiores controvérsias quando estrear (a Imovision vai distribuí-lo no segundo semestre). Hoineff transita perigosamente num limite entre a ética, o politicamente incorreto e o abuso e desrespeito. É complicado afirmar onde começa um e outro, o que vai depender não apenas do filme em si, mas dos próprios valores de quem o assiste. Isso provavelmente torna Alô Alô Terezinha! uma experiência curiosa. O riso, em várias cenas, é inevitável (quem resiste a Biafra levando um safanão de um paraglider?), mas o constrangimento também (a ex-chacrete, envelhecida, dançando seminua numa fonte de água). Hoineff vai às últimas consequências para discutir o que representou na vida de uma infinita fauna de gente ter cruzado o caminho de Chacrinha diante das câmeras.

 

São todas figuras com um algo de tragicômico, que, mesmo reconhecidas em seus nichos, aparecem no filme ora diminuídas nas próprias decadências artísticas (Nelson Ned), ora nas noções preconceituosas aparentemente baseadas em ressentimentos (Agnaldo Timóteo). O caso das chacretes, em especial, lança mais fogo: há especulações de que faziam programas com diversos convidados e mesmo a insinuação do próprio Chacrinha ter tido casos com algumas delas (contraposta ao depoimento da viúva do apresentador falando sobre a confiança que depositava no marido).

 

Hoineff pode estar rindo junto com a plateia, mas pode também estar rindo da plateia. Sob vias tortas, é como se, ao expor os entrevistados a profundas situações ridículas, ele quisesse “provar” que o público ainda quer se divertir com as galhordices criadas por Chacrinha na TV. De fato, a impressão que surge nas risadas das milhares de pessoas no Cine Teatro Guararapes (e esse é um típico filme que perderá parte de sua força quando exibido numa sala comercial a espectadores menos passionais) é de que se gargalha muito facilmente da decadência do outro; de que os valores talvez valham para si, não para o próximo; de que Chacrinha e seu jeito espalhafatoso não envelheceram, como pode parecer. Se o riso de Hoineff for de dentro para fora do filme, vai fazer sentido.

 

Mas, se esse riso estiver de fora para dentro, Alô Alô Terezinha!, tende a ser apenas de mau gosto – como também o era Chacrinha. E, nesse caso, como não reconhecer coerência na proposta de Nelson Hoineff? Coerência, claro, não denota ética nem estética. Guarda, na definição, algumas escolhas aqui que vão ao encontro de outras lá. O filme tem força para gerar alguns bons embates entre quem se dispuser a discutir as escolhas de Hoineff. Isso, claro, depois que se parar de rir da topada no Biafra...

 

Filmes Citados:

Alô, Alô, Terezinha (idem, 2008/Nelson Hoineff)

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