Cine PE – resumão dos dias 3 e 4

 

por Marcelo Miranda

O acúmulo de dois dias de festival é sempre um transtorno. Fica parecendo que o polvo não escreveu, quando a quantidade de palavras redigidas no período foi assombrosa. De qualquer forma, cá estamos, para tentar dar um olhar meio geral sobre o 13º Cine PE e chamar atenção a alguns dos filmes aqui exibidos.

A zebra maior acontece quando são poucos os trabalhos de fato passíveis de maiores comentários e recomendações. Muro é ainda o topo do topo, talvez a melhor coisa brasileira a ser exibida no país até agora (o amigo Cleber Eduardo fez justo e emocionado texto a respeito do filme de Tião). Nos dois dias aqui abordados, nenhum curta se destacou para além de algumas boas e más impressões do todo, com o enriquecimento dos debates, que iluminam determinadas escolhas e esfumaçam outras tantas.

Na quarta-feira, um momento off-cinema: o documentário Um Artilheiro no meu Coração, sobre o jogador pernambucano Ademir Menezes (que fez nove gols pela seleção na Copa de 1950, mas virou uma mancha na história por conta da derrota para o Uruguai), levantou a platéia torcedora do Sport Recife, aos berros ensurdecedores de “cazá-cazá-cazá!!!!!!!!!!”, tomando uns bons segundos do curta seguinte, Quintas Intenções. Do lado de fora do Cine Teatro Guararapes, dois telões posicionados para a transmissão do jogo do Sport pela Libertadores. “Quando assistirem ao filme, vamos encontrar ali fora para ver o jogo”, disse um dos realizadores de Um Artilheiro no meu Coração, na apresentação do curta. “Depois dos filmes todo mundo pode ir para suas casas torcer pelo Sport”, tentou consertar a mestre-de-cerimônias. Pegou mal.

E, claro, não deu outra: quando começou o longa da noite, o documentário Um Homem de Moral, de Ricardo Dias, a sala de quase 3.000 lugares estava bastante esvaziada. Boa parte de quem estava no centro de convenções foi ver a partida de futebol. Restou o bonito trabalho de Dias, que busca retratar a genialidade do sambista (e cientista) Paulo Vanzolini, autor de belas letras da música brasileira (quem se lembra do uso assombroso de Volta por Cima na politização de Antônio das Mortes em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro?).

O filme não é destituído de falhas, especialmente no uso que faz das telas divididas num mesmo depoimento e na falta de sincronia entre voz e imagem nas cenas de estúdio. Mas os problemas parecem reduzidos quando nos deixamos levar por Vanzolini, por sua rabugice, a verve irônica e sacana, os insights que retratam muito dos desencontros mais típicos da vida. Existe também um ar de “paulistanidade” que talvez seja bem melhor captado por moradores de São Paulo, mas que é explicitado pelas imagens da cidade, de alguns seus ícones (o Minhocão), da arquitetura e da ambientação metropolitana, em alguns casos contrapostos às pesquisas científicas de Vanzolini na mata.

A importância de Um Homem de Moral já é, desde já, resgatar e registrar o trabalho notável do compositor. São 26 músicas arranjadas e apresentadas ao longo do filme, em shows, gravações e mesmo o próprio Vanzolini cantando de improviso. Existe um ar de excelente receptividade pública ao filme, constatados nos aplausos constantes durante a sessão em Recife e nos sorrisos e olhares alegres de quem abriu mão do aparentemente imperdível jogo do Sport (quilos de ironia aqui) para se deixar levar por Vanzolini.

Já na quinta-feira, a ficção Praça Saens Peña, do carioca Vinícius Reis, começou bem além do horário programado, o que pode explicar a debandada de algumas pessoas. Por outro lado, o filme gerou boas reações do público. É mesmo uma produção de forte empatia, ao retratar o cotidiano de uma família de classe média da Tijuca, no Rio de Janeiro. Como Um Homem de Moral em relação a São Paulo, o filme de Vinícius deve bater mais forte em quem vem de terras cariocas, especialmente tijucanas, mas ainda assim constrói com sutileza o mergulho no inferno do dia-a-dia que se torna a saga do protagonista (Chico Diaz) em escrever um livro sobre seu bairro.

Poucas vezes o cinema brasileiro se dispõe a tratar de uma classe social como a de Praça Sans Peña. Nem ricos nem pobres, nem burgueses nem miseráveis, os familiares tentando conviver diante das adversidades são simplesmente retratos de uma busca fracassada por sucesso. O que se vê na tela são figuras sem qualquer tipo de interesse imediato, gente com quem se cruza a todo instante, que briga em casa, que disputa computadores, que fecha a cara para a mãe, que trabalha o dia todo e no fim do dia assiste ao noticiário na televisão, que sonha em ter um apartamento só seu.

O fato de figuras assim funcionarem na tela já é o atestado de que elas têm algum interesse, e o maior mérito de Vinícius Reis é desenvolver todo o drama em doses homeopáticas e sem jamais escorregar para a caricatura ou o excesso. Os tons estão todos bem urdidos, até mesmo a filha adolescente que por vezes nos parece insuportável. É até por conta de todo o cuidado do diretor na construção de seus personagens e situações que uma cena supostamente de sonho, em que Chico Diaz lamenta algo relativo à esposa num momento do enredo em que nada de muito grave ainda aconteceu. Com seus tons de crônica urbana, fica parecendo algo pouco previsto e bastante inadequado, inclusive ao óbvio carinho do cineasta para com suas criações. O polvo Nísio Teixeira escreveu ótimo artigo sobre Praça Saens Peña durante a Mostra de Tiradentes.

Filmes Citados:
Muro (idem, 2008/Tião)
Um Artilheiro no Meu Coração (idem, 2008/Diego Trajano, Lucas Fitipaldi e Mellyna Reis)
Quintas Intenções (idem, 2008/Maurício Rizzo)
Um Homem de Moral (idem, 2008/Ricardo Dias)
O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (idem, 1969/Glauber Rocha)
Praça Saens Peña (idem, 2008/Vinícius Reis)

Leia novidades instantâneas em nossoblog.