
por Marcelo Miranda
Num festival de tamanha envergadura como é o Cine PE, o acavalamento de filmes por vezes pode se tornar um problema. Se Brasília, por exemplo, resume-se a dois curtas e um longa por noite, Recife aumenta a dosagem, lançando à sua plateia de 2.500 a 3.000 pessoas doses bem maiores de audiovisual. E dá-lhe curtas digitais, curtas em película, longa de competição, longa de mostras locais, homenagens, apresentações e vários etc. Claro, Tiradentes é um pouco assim também, mas existe lá o descompromisso com a oficialidade, indo da apresentação mais familiar dos realizadores às exibições em tendas e na praça, ou mesmo a falta de competição. No Cine PE, existe, afinal de contas, o “compromisso” de se assistir aos filmes selecionados num esquema meio “evento”, porque dali sairão vencedores de troféus (o Calunga, no caso) que pautarão diversos segmentos dos trabalhos em questão ao longo do ano (muitas vezes, servirão apenas de edulcoramento de cartazes, mas isso é outro papo).
Em vista disso (e porque este polvo está cobrindo o festival na condição de repórter do jornal mineiro O Tempo, aproveitando o ensejo para contrabandear impressões para este site, ainda que muitas vezes limitado – foi mal o trocadilho – pela falta de tempo), optou-se aqui por não abordar todos os curtas. Alguns já foram comentados por outros polvos (veja ao lado, em “Outros textos”); outros não geram reações fortes o suficiente para demandarem tempo de reflexão em espaços e oportunidades de gerenciamento tão complicado.
No caso até agora (dois dias de exibição até o momento), apenas Muro teve força arrebatadora dentro da competição, sob toda e qualquer categoria e instância. O pequeno grande filme do pernambucano Tião tem força tão impressionante e tão além de seus “concorrentes” que qualquer brilho dos demais é ofuscado diante dele. Foi um imenso acerto exibir Muro no final da sessão do segundo dia, porque o que viesse depois não teria mais espaço na cabeça de muitos que viram o curta de Tião. A recepção do público, como é comum em filmes de maior exigência e sensibilidade, foi morna, mas não destituída de empolgação. O cineasta, por sua vez, parece se importar pouco com esse retorno: Tião se recusa a falar e refletir o próprio filme publicamente (e, em alguns casos, mesmo privadamente), ausentando-se inclusive do debate realizado no dia seguinte à projeção. Sem prêmios, porém, ele não deve ficar: conversas particulares andaram revelando que a escolha dos jurados deverá ser “previsível”, e imagina-se o que isso queira dizer.
Se Muro absorve para si toda essa carga, ainda resta a alguns trabalhos de destaque um pouco de merecida atenção. Em especial Selos, curta de notável discrição e rigor na construção visual sobre um garoto amigo do carteiro. Dirigido pela cearense Gracielly Dias, tem todo um cuidado estético com a imagem e com a forma como ela se apresenta, criando uma atmosfera que jamais vai além das impressões que os personagens têm do mundo ao redor, guardando para eles os sentimentos e, para nós, as reações. Por ser trabalho de um curso de cinema, teve orientação de Karim Aïnouz (Madame Satã e O Céu de Suely), o que já lhe atesta um caminho.
Tem ainda chamado atenção por aqui, com qualidades variadas (quase sempre para baixo), produções de baixíssimo orçamento que parecem querer justificar suas existência em cima dessas limitações. O pior deles é Teteco, filmado com câmeras de celular e cuja falta de impacto não se deve à mídia utilizada, mas ao que se vê diante dela – encenação cheia de equívocos e uma perda de foco entre a dramatização de um assalto e a “preocupação” em transmitir a noção de que existe um excesso de imagens rondando a vida de todos nós. Em linha parecida, porém de sentido inverso, é o curioso 6.5 Megapixels: com um minuto de duração, registra a frustração de um filme jamais realizado. Curiosamente, também depende de uma situação de assalto para existir, assim como Teteco.
O Troco (André Rolim) e Manual para se Defender de Alienígenas, Zumbis e Ninjas (André Moraes) também apostam na “toscovisualidade”, com resultados distintos e erros semelhantes. De diferente, o primeiro se resolve melhor, muito por lidar com questões próximas ao público (os famigerados telefonistas de telemarketing) e brincar com estereótipos e caricaturas de uma certa classe média baixa brasileira, enquanto o segundo usa boas referências do universo pop, mas termina por esbarrar num redemoinho de empolgação com estas mesmas referências. E, de semelhante, os dois parecem não saber muito bem se desenvolver para além de cada premissa, durando muito mais do que suas propostas mereciam e, com isso, diminuindo bastante o efeito na tela (ainda que O Troco tenha, de fato, sacudido a plateia do festival e levantado gritos e palmas ensurdecedores).
Sobre o primeiro longa-metragem da competição, o paranaense Mystérios, exibido na noite de terça-feira, não tenho nada de mais substancial a falar para além do que a colega-polvo Ursula Röesele escreveu quando da exibição do filme na Mostra de Tiradentes. Por conta disso, recomendo a leitura do texto aqui.
Filmes Citados:
Muro (idem, 2008/Tião)
Selos (idem, 2008/Gracielly Dias)
Madame Satã (idem, 2002/Karim Aïnouz)
O Céu de Suely (idem, 2006/Karim Aïnouz)
Teteco (idem, 2008/Glauco Kuhnert)
6.5 Megapixels (idem, 2008/Michelline Helena, Gláucia Soares e Janaína de Paula)
O Troco (idem, 2008/André Rolim)
Manual para se Defender de Alienígenas, Zumbis e Ninjas (idem,
Mystérios (idem, 2008/Beto Carminatti e Pedro Merege)