Cine PE – dia 1: “Eden á L’ouest”, de Costa-Gavras

por Marcelo Miranda

 

O novo filme do greco-francês Konstantin Costa-Gavras, Eden á L’ouest, abriu a 13ª edição do Cine PE – Festival Audiovisual do Recife, como forma de homenagear o cineasta de 76 anos, presente no evento. Levando em consideração os filmes mais representativos de Costa-Gavras – em especial Z, Estado de Sítio e Seção Especial de Justiça – e algumas de suas cenas mais irônicas ou debochadas, a impressão em relação ao projeto atual é de que o cineasta sempre esteve predestinado a realizar o que se viu por aqui. Eden á L’ouest (ou “Éden a Oeste”, em tradução livre) se apresenta como uma comédia de erros cujo tema maior – a imigração europeia – quase passa ao largo diante da série de trapalhadas nas quais o personagem central se envolve.

 

É um trabalho que, não levasse o nome prestigioso de Costa-Gavras, certamente não teria a aura de respeito e adoração com a qual se cercou na exibição pelo Cine PE (antes, o filme apenas havia encerrado o Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro). Tendo um dos protagonistas mais carregadamente patéticos da carreira do diretor, com características que tentam universalizá-lo (nunca se diz de qual país ele vem) sem que isso seja realmente percebido através da imagem, o filme tenta brincar com as possibilidades de um imigrante completamente largado num universo kafkiano que não lhe permite chegar ao destino final. Fica a noção de que Costa-Gavras não tem o timing mais correto para lidar com o tom do material.

 

Na verdade, Costa-Gavras é um nome mais ligado ao passado (em vários sentidos do termo) do que necessariamente ao presente. Ainda se arrisca a falar de temas tidos como atuais – o sensacionalismo da mídia (O Quarto Poder), o desemprego diante da globalização (O Corte) –, mas sempre tropeça nos excessos que, se já existiam em outros tempos, ao menos eram justificados pelos contextos políticos de onde os filmes brotavam. A relevância de um cineasta do naipe de Costa-Gavras está menos na política de seus filmes do que na politização do realizador. Ele sempre se dispôs a tocar feridas pouco afeitas aos regimes dominantes, desde a Grécia (Z) até Uruguai e Chile (Estado de Sítio e Missing), só que a estética escolhida sempre foi a falta de estética – e, diante de suas propostas e da franqueza com que expunha essa “limitação” na tela, havia certa legimitidade em seu cinema. Não é por menos que Costa-Gavras pareça mais solto e sério ao retratar dramas intimistas, apenas emoldurados numa capa de discussão política, sem querer abarcar o mundo – como acontece no bastante intenso Muito Mais que um Crime.

 

Nesta “nova fase” século XXI, Costa-Gavras decidiu assumir o lado pastiche das situações políticas escolhidas para expor na tela. Se em O Corte isso já era evidente, em Eden á L’ouest chega às raias do insuportável, numa série de situações de estupidez tamanha que apenas esvaziam a já falha tentativa de discurso do cineasta. Se a falta de estética de Costa-Gavras poderia, antes, ser compensada pela relevância de seus temas (ainda que esta relação seja sempre um terreno pantanoso em se tratando de cinema – de cinema de verdade, vale dizer), agora nem isso sobra. A insistência em negar nacionalidade ao personagem (se ele pode ser de qualquer lugar do leste europeu, ele acaba sendo de lugar algum), a ingenuidade excessiva, os tipos que vão cruzando o caminho do imigrante: cada elemento, entre outros tantos, tornam cumulativa uma experiência audiovisual de pouco interesse.

 

Eden á L’ouest poderia ser taxado de “filme de velho”, não fosse o cinema o espaço por excelência de realizadores veteranos – que o digam Clint Eastwood, Manoel de Oliveira, Eduardo Coutinho, para falar apenas dos que aqui surgem na lembrança imediata. Trata-se, portanto, de um “filme velho”. O que envelheceu – ou, mais que isso, não se encontrou no cinema recente – foi a forma de Costa-Gavras em dramatizar seus enredos. É sintomático, portanto, que o vídeo produzido especialmente para a homenagem ao cineasta no Cine PE contenha depoimentos apenas de figuras da velha (e muitas vezes rançosa) guarda do cinema brasileiro, como Silvio Tendler, Luiz Carlos Barreto, Cacá Diegues (todos cariocas, aliás, o que dá a pensar se apenas o Rio de Janeiro teve acesso aos filmes do diretor): o que fica é a lembrança de realizações que falaram fundo a uma geração passada, enquanto as de hoje aparentemente não falam nada às plateias atuais e deixarão poucas lembranças às futuras. Sem um alvo para onde apontar o dedo, Costa-Gavras parece o protagonsita de Eden á L’ouest: sem ter aonde ir e sem saber como agir. Não deixa de haver, aqui, uma certa coerência.

 

Filmes Citados:

Z (idem, 1969)

Estado de Sítio (État de Siége, 1973)

Seção Especial de Justiça (Séction Spéciale, 1975)

Missing – O Desaparecido (Missing, 1982)

Muito mais que um Crime (Music Box, 1989)

O Quarto Poder (Mad City, 1997)

O Corte (Le Couperet, 2005)

Eden á L’oustet (idem, 2009)

 

*Todos dirigidos por Costa-Gavras

 

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