
por Ursula Rösele
O título Hóspedes é muito interessante, uma vez que - no sentido literal – há apenas uma hóspede no filme. Uma garota sofre um acidente e acorda em uma cama estranha, com gesso em uma das pernas e um bilhete de Renato, dizendo que tomou a liberdade de olhar sua bolsa para saber quem era sua hóspede. Não sabemos nada deles, de onde vieram e que tipo de experiências carregam. Ela observa o apartamento, olha a gaveta de Renato, idealiza em suas expressões seu “desconhecido salvador”. Aos poucos – e todo o ritmo do filme é construído aos poucos – entendemos de onde vem o plural de seu título.
Os dois são hóspedes do mundo, estranhos perdidos em sentimentos de não-pertencimento. Ela, por uma dor escondida em imagens antigas as quais vemos apenas trechos em seus devaneios de tristeza, que parecem guardar um antigo amor; ele, por ser anão (apesar de em nenhum momento o filme usar disso como um empecilho). Hóspedes, além de respeitar profundamente essas questões, desenvolve uma cadência doce, na qual descobrimos muito pouco, mas acompanhamos a libertação daquele corpo preso (literal e metaforicamente) ao gesso, à angústia, a imagens que – em seu imaginário – não a abrigam.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Filme Citado:
Hóspedes (idem, 2008/Cristiane Oliveira)