Os Sapatos de Aristeu*

por Gabriel Martins

 

Há uma semelhança entre o projeto de Os Sapatos de Aristeu e a fotografia still, um tratamento específico sobre a individualidade do plano. O filme nos propõe o silêncio e a espera, elementos que enfatizam a potência da decupagem, a mise-en-scène que ordena os atores em planos favoráveis à câmera. Ainda que exista uma narrativa evidente, a significação da imagem, seus dizeres internos, trazem um tratamento particular mais interessantes que apenas um enredo. Evidenciar o corpo na encenação, este que é elemento de conflito entre os personagens, é perceber que a câmera tem um poder de edificação. O desenho de cena estabelece um diálogo entre os espaços, algo representativo da própria valorização do corpo em duas esferas diferentes – o Aristeu de dentro de casa é um, o Aristeu de fora é evidentemente outro, e ambos devem pertencer simultaneamente a estes dois ambientes habitando um corpo só. Mas o corpo é mais da rua, e está mudado. Daí a tesoura, como se fosse uma maneira de pegar um pedaço de cabelo representativo tanto do Aristeu negado (o cabelo foi cortado, era longo e feminino), como do velho, o DNA, algo imutável. E esta lógica ascende até o belo plano final, um registro da impossibilidade de entender a identidade de Aristeu, pois, neste caso, ela só consegue ser reconhecida no físico.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Filmes Citados:
Os Sapatos de Aristeu (idem, 2008/Luiz René Guerra)

 

Leia novidades instantâneas em nossoblog.