Superbarroco*

por Marcelo Miranda

 

Lembranças, alucinações, surrealismo, sobreposições, tudo se mistura numa massa só neste curta alucinado e alucinante, que começa de forma tradicional e torna-se um verdadeiro sonho em forma de película. Por alguns instantes fui remetido a Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel, menos pelos desdobramentos do que pela aura de inquietude, de uma mentalidade sendo projetada na imagem, da sensação de que absolutamente qualquer coisa poderia brotar da tela. Há planos de cuidadosa plasticidade (o personagem se banhando), em que os ângulos da câmera tentam transmitir as sensações mais íntimas. Muito da força de Superbarroco deve, para além da direção de Renata Pinheiro, da entrega de Everaldo Pontes como o protagonista, um misto de insanidade e ingenuidade, uma figura que encarna a tragédia de corpo e mente mesclada à ânsia de viver a qualquer custo, venha o que vier de dentro ou fora da própria cabeça. Trabalhando o cenário com acuidade na mistura de tempos e espaços, esta pérola pernambucana já nasce como um dos trabalhos mais instigantes da nova safra de curtas brasileiros.

 

*Visto no 41º Festival de Cinema de Brasília.

 

Filmes Citados:

Superbarroco (idem, 2008/Renata Pinheiro)

Um Cão Andaluz (Um Chien Andalou, 1929/Luís Buñuel)

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