Mistéryos*

por Ursula Rösele

 

O longa Mistéryos é uma espécie de adaptação-homenagem de quatro contos do escritor paulista Valêncio Xavier: “O Mistério da Porta Aberta”, “O Mistério Sapho – o Amor entre as Mulheres”, “Mistério Números” e “Um Mistério no Trem Fantasma”. Xavier, além de criador da Cinemateca de Curitiba, é considerado um dos precursores da multimídia no Brasil, por utilizar-se de imagens em seus textos literários.  

 

Um dos maiores problemas do filme é a imanação constante de uma obsessão pela obra literária de Xavier, como se a transposição de seus textos em imagens bem fotografadas já conseguisse passar para o espectador não somente seus objetivos, mas algum tipo de sentido, ainda que o filme pareça não se importar com eles. É um filme tão amarrado na narrativa escrita que suas imagens soam apenas como representações quase masturbatórias de um imagético enfurnado dentro da mente de seus diretores, totalmente destoados da idéia de que a adaptação de uma obra literária deve partir ao menos do pressuposto que aqueles que não a leram, também possam desfrutar do filme. Ou, no mínimo, que uma obra cinematográfica traga elementos descolados dessa prisão escrita que fatalmente relativiza o potencial do cinema.

 

Mistéryos tem como protagonista dos quatro contos atemporais um Carlos Vereza mais estigmatizado impossível, transitando pelos tais mistérios como personagem central deles ou apenas observador. Há uma preocupação excessiva com o roteiro, transposto – quando não dos textos literários – de forma absurdamente esquemática e muitas das vezes piegas. O estilo do filme claramente advém do cinema clássico, mas utilizado de uma maneira equivocada, num tom pasteurizado e de tal forma óbvio, que por diversos momentos fez pensar se tratarem de algum tipo de ironia da obra na própria obra, ou de intencionalidade nas abordagens exageradas escolhidas. Infelizmente, não o é. O filme se leva a sério, e até demais.

 

Estar num parâmetro difícil de reconhecer no cinema contemporâneo não é em si uma virtude. Sim, Mistéryos trafega por determinados meandros aparentemente novos, mas caindo em clichês narrativos maçantes e pouco inventivos. A fotografia é um dos méritos do filme, mas se perde nesses instantes de obviedade narrativa, como o uso de sépia para designar um período antigo ou falas espertas, como um momento em que uma das personagens diz o ditado “mão fria, coração quente”, e corta-se para um close de um espetinho de corações de galinha.

 

O filme parte pela busca de adentrar um universo irreconhecível, uma instância complexa da Curitiba de décadas atrás, a partir da imersão do personagem/personagens de Vereza na imaginação advinda de uma porta entreaberta na qual vemos três velas acesas, flutuando na única fresta que permitiria a visão do que ela guarda. As divagações do personagem de Vereza flutuam numa filosofia vazia, numa angústia enigmática distanciada, repleta de pequenas colagens que aludem aos interesses pela recuperação de arquivos de Valêncio Xavier e para nortearem as alternâncias entre os “mistérios” que Vereza não busca solucionar, mas talvez adentrá-los ainda mais.  

 

A porta sugere inúmeros significados, a noite é uma boa acompanhante dos mistérios, os insones são os personagens mais prováveis de tentarem adentrar em lugares irreconhecíveis de nosso interior e das particularidades de um local como Curitiba. A sensação que fica é que o filme navega, navega, navega, sufoca-se em suas buscas intermináveis e não só deixa em aberto suas questões como passa a sensação desconfortável de que suas principais indagações “quem” e “por quê?” resumem o filme como um todo. Vazio, oco, sem vida.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Filme Citado:

Mistéryos (idem, 2008/Beto Carminatti e Pedro Merege)

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