Muro*

por Gabriel Martins

 

Existem certos filmes que provocam algumas reações que a um primeiro momento são indecifráveis, complexas de serem registradas em texto. Muro é um exemplo. Há ali um turbilhão de imagens carregadas de signos próprios, mas que não se pretendem uma conexão e justificação conjunta em uma instância meramente narrativa. No filme, é trabalhado um significado maior do cinema que é o de ferramenta de expressão e construção, a arte que possibilita traduzir idéias e sonhos em um nível diferenciado das outras artes. E é sensacional ver um filme como Muro, que presta uma verdadeira homenagem à concepção cinematográfica e à própria noção da imagem como catalisadora de um deslumbramento com a subversão da física da vida e das coisas através da manipulação cinematográfica – sendo os recortes rápidos iniciais da corrida um contraponto ao uso de câmera lenta no final. Por isso o cinemascope como uma ferramenta não só visualmente impactante, mas representativa de um momento em que o cinema evoca para si uma atenção que estava sendo perdida para a televisão, nos anos 50. O formato, além de aproveitar a tela em toda sua extensão, satisfaz a necessidade de uma arte grande, um impacto do tamanho do cinema e que vêm de trem, lá de trás. Portanto, Muro consegue ir além de um discurso social existente em si (que é importante), para mirar um enumerado de sensações – algo como correr sem respirar – e atingir algo que é indecifrável: nossa relação de amor e inquietação com o cinema.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Filmes Citados:

Muro (idem, 2008/Tião)

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