
por Mariana Souto
Partindo da escolha de um país do mundo e um estado do Brasil, a mostra Imagem dos Povos traz em 2007 a produção da China e de Pernambuco. A primeira edição teve como escolhidos Nova Zelândia e Minas Gerais; a segunda, Índia e Rio Grande do Sul. O festival gira em torno da idéia de aproximação cultural e estreitamento de laços dentro do próprio Brasil e do país com seus demais, vizinhos ou não. Cada ano se dedica a determinados selecionados, conferindo assim um maior foco ao festival, evitando a superficialidade de recorte que corre o risco uma mostra mais generalista.
Também não se pode esperar a maior das profundidades em menos de uma semana de festival. Mas Imagem dos Povos é um ótimo ponto de partida para se conhecer e discutir a filmografia de um país. E discutindo o cinema de um lugar, conhece-se melhor sua cultura, seu povo, seus costumes. Os filmes são considerados aqui como portas de entrada para um mundo longínquo, às vezes estranho aos olhos brasileiros desse estado em formato narigudo e afastado do mar.
A cerimônia de abertura do festival, no Cine Vila Rica, contou com a participação de Adyr Assumpção e Tâmara Ribeiro, coordenadores gerais do evento, representantes da secretaria de cultura, o empolgado prefeito de Ouro Preto Ângelo Oswaldo, o embaixador da China no Brasil Chen Duqing, a atriz e produtora Lucélia Santos, entre outros. O ponto alto ficou por conta do diretor Yin Li, que ao receber a palavra, resolveu caminhar com o microfone em direção à platéia e fazer a apresentação de seus atores, com expressões traduzidas pelo intérprete como “ele é muito famoso na China e tem muitas e muitas fãs”, “eu não gosto de ficar perto dela porque é mais alta do que eu”.
A delegação chinesa trouxe ainda representantes da província de Shaanxi, com discursos sobre suas belezas e inevitáveis elogios ao Brasil (imagine com sotaque): “O Brasil tem tido grandes avanços econômicos e aumenta sua relevância no cenário mundial, o que nos deixa impressionados”.
Lucélia Santos, considerada a madrinha do Brasil na China e grande entusiasta daquele país, falou de seu trabalho de incentivo a co-produções e apresentou trechos do longa Um Amor do Outro Lado do Mundo, que também protagoniza.
Após as formalidades de abertura, teve início uma curta peça de teatro de sombras chinês, considerado um dos precursores do cinema. A Tartaruga e a Garça manteve o público de olhos vidrados em sua beleza plástica. O primeiro longa do evento, O Casamento de Tuya, premiado com o Urso de Ouro 2007 no Festival de Berlim, ressalta a diversidade cultural da cinematografia chinesa. O público, acostumado com a suntuosidade estética e temática dos lançamentos recentes como Herói e O Clã das Adagas Voadoras, foi surpreendido com o filme cru e bastante realista de Wang Quan’an.
O Casamento de Tuya se passa em áreas desérticas e isoladas da Mongólia, sem ornamentações de cenário ou fotografia mirabolante. Tuya é uma jovem com dois filhos, casada com um homem que se tornou inválido após um acidente perfurando um poço. Ambos consideram o divórcio como a melhor solução para que ela encontre um outro marido que possa sustentá-los. Depois de muitas propostas, casa-se com um antigo colega e, com peso na consciência, interna o ex-marido em um asilo.
Não se sabe se Tuya e o ex-marido se amam como casal, mas isso parece importar muito menos do que a lealdade e a dedicação que têm um pelo outro. Sentimento semelhante há entre Tuya e o vizinho sempre desprezado pela esposa. Entre eles, há uma bonita cumplicidade que acaba se transformando em amor, culminando numa proposta de casamento. Mas novamente trata-se de um amor de lealdade e amizade, nunca apaixonado ou erotizado. Os sentimentos que unem os personagens são puros e transcendem categorizações românticas-sexuais.
No filme de Quan’an, o divórcio parece ser prática tão comum quanto as tradições que os personagens carregam e que direcionam seu comportamento. O importante naquela comunidade isolada são a sobrevivência, os costumes e as tradições, simbolizados pelo rebanho que é levado para lá e para cá, sem ter direito a vontade própria e agindo de acordo com determinações alheias. As pessoas até tentam reagir e furam poços no chão para umedecer toda aquela aridez e assim tornar a vida mais agradável, mas quem tenta sempre se estrepa. A fuga naquelas circunstâncias não é tarefa fácil.
A geografia do longa é apresentada em planos abertos que ressaltam o isolamento do local. A câmera avança no ritmo suave daquela comunidade, sem muitas intervenções e sem a deslumbrância muito presente no cinema chinês, principalmente quando se trata de Zhang Yimou ou Chen Kaige. Desde pequeno a gente vê no mapa mundi que a China é muito grande e cabe toda uma variedade de abordagens, cada uma com seu contexto, proposta e beleza específica. O que não cabe são os estereótipos.