
por Gabriel Martins
Chegado o fim do Forum Doc, que pôde apresentar vários filmes do diretor Pedro Costa (infelizmente não pude assistir a todos, repescagem já na agenda), senti na admiração à formidável fotografia de Sangue uma curiosidade formalista em comparação desta obra com Juventude em Marcha e Ossos. Já adianto que a possibilidade de discorrer claramente sobre as 3 "narrativas" – em Pedro Costa esse termo pode ser bem relativo – é uma tarefa quase impossível em apenas um primeiro contato. O cinema deste diretor português consegue navegar de forma complexa entre a essência da linguagem cinematográfica nos seus vários efeitos dentro de uma história. Muitas vezes, a própria articulação se torna o plano principal, e aí é preciso analisar caso a caso.
Ossos utiliza-se do tempo lento da narrativa como uma própria manifestação da angústia dos personagens frente à vida. Vai além, e a câmera se mantém ligada como um recurso imediatamente refém da própria encenação. O silêncio, a embriaguez, a indecisão e a própria indolência física e emocional são subterfúgios à situação que Pedro Costa pretende expor. Não é em nada palatável, e os enquadramentos refletem diretamente esta possibilidade de compartilhar com o espectador o desconforto do passar lento do tempo e da vida. Ali, temos personagens com barreiras emocionais paradoxalmente explicitadas no silêncio, e nele próprio se fundindo à imagem. Esta pausa constante e desconfortável traz à tona a principal matriz lingüística que aqui se faz evidente: a espera, tratada principalmente em quadros amplos com profundidade de campo*, não define o foco principal de ação nem direciona o espectador. Neste “não-direcionamento”, permanece a dúvida não como um fator negativo, mas como uma própria transfusão do estado de espírito do objeto ao sujeito, impregnando a tela com a melancolia – e tensão – do tempo morto. É preciso, entretanto, ter um pouco de paciência.
Andre Bazin vê na estaticidade de um plano-sequência em profundidade de campo a possibilidade de compartilharmos um pouco mais da experiência cinematográfica ao observarmos a composição de cena, dos objetos, da mise-en-scène como um todo. Juventude em Marcha é praticamente um rebento da teoria baziniana. A estratégia de Pedro Costa é a de captar na longevidade dos planos (em sua maioria dotados de profundidade de campo) o naturalismo da espontaneidade da ação. Ali não se define o que é premeditado. A câmera faz um papel de observadora que, ainda que se permita a "ausência" (não há comentários específicos, apenas registro de imagem e som ambientes), resguarda na captação o verdadeiro conteúdo e semântica do filme. Na profundidade de campo, os personagens se fundem ao cenário como uma própria imagem sem possibilidades de dissociação. Não há níveis de olhar e nem camadas de foco. A cena é uma, fixa e independente. O que se objetiva não é a particularidade dramática individual, mas a textura de cada olhar, cada maneirismo, cada corpo e modo de falar como símbolo que é.
Em Sangue, a composição segue quase como antítese de Juventude em Marcha. Não entrando em fatores cronológicos (Sangue vem 17 anos antes) que colocam cada obra a seu tempo (uma em película e outra em digital, recursos diretamente ligados com cada proposta), vê-se claramente o abismo formal que separa um filme do outro. Sangue segue a narrativa clássica e montagem analítica (variados cortes dentro de uma mesma cena), com uma plasticidade que busca na textura das folhas e galhos secos formas de opressão visual dos personagens. Trata-se de um tratamento fotográfico que beira a perfeição na complexidade não só técnica como conceitual. Há respiração do noir na pontualidade da luz que acaba por fragmentar o cenário em vários "segmentos de importância", aproximando-se mais dos personagens que ganham maior destaque pela pouca profundidade de campo. Há sempre um assunto, que na maioria são rostos em fala ou reação. Um filme narrativamente complexo, que traz na agressividade das elipses (principalmente no terceiro ato) o pressuposto de que mais de um terço dos fatos se construa na cabeça do espectador.
Pedro Costa pôde apresentar neste conjunto um verdadeiro preciosismo e talento plástico imediatamente ligado com o universo que pretende habitar. Suas imagens fazem parte de uma impressão visual que vai além do universo sociológico e geográfico. Certamente, exige uma predisposição ao olhar voluntário do espectador. Se se configura como "anti", ou menos palatável, certamente parte da percepção de cada um. Em mim, Pedro Costa despertou-se acima de tudo no plano estético formal. O seu interior, se é que pode ser desvendado, exige um segundo olhar para maiores orientações.
*profundidade de campo é um termo usado na linguagem fotográfica ao se referir a imagens que possuem praticamente todos elementos em foco, o que normalmente é possível em quadros mais abertos (lentes grande angulares por exemplo). Como o próprio termo diz, é possível perceber a profundidade no plano.
*Visto no 11º Forum.doc.bh.
Filmes Citados:
Sangue (O Sangue, 1989/ Pedro Costa)
Ossos (idem, 1997/ Pedro Costa)
Juventude em Marcha (idem, 2006/ Pedro Costa)