
por Mariana Souto
Contando com a presença do diretor, a sessão de Na Corda Bamba foi enriquecida por informações e comentários sobre seu processo de realização. O documentário trata de um minoria muçulmana residente na China que enfrenta dificuldades no convívio com o rígido e repressor governo chinês. O filme acompanha crianças de um orfanato local que se empenham na atividade tradicional do equilíbrio na corda bamba.
O diretor Petr Lom contou de sua longa espera pela permissão oficial para filmar e da imposição de ser acompanhado por um representante do governo - que acabou não colocando muitos obstáculos porque além de “gente boa” era preguiçoso, ficando quase o tempo inteiro no hotel e deixando Lom bem à vontade em seu trabalho. Isso facilitava os planos do diretor, que tinha como objetivo sumir naquele ambiente para que pudesse captar a realidade com o mínimo de influência externa.
A equipe era composta apenas por Lom, que fazia todo o trabalho de câmera, e uma tradutora. O fato de não falar o idioma contribuía para que ele “sumisse” no local, pois as pessoas ignoravam sua presença e falavam livremente, já que ele não as entenderia. O diretor colheu depoimentos de professores, treinadores e de várias crianças de um orfanato público, dando destaque a quatro delas. Como não podia deixar de acontecer em um filme com crianças em situações difíceis, há vários momentos bonitinhos e geradores de empatia no público. Alguns deles não são simplesmente simpáticos, mas revelam traços da cultura do uighurs inserida na China, o temor a Alah e o temor ainda maior de que os chineses descubram que são religiosos, já que lá isso não é permitido.
Desde o início o diretor conta que inseriu imagens de pássaros em seu filme numa alusão a um conto simples sobre aves cujo autor foi punido, devido ao seu potencial metafórico. Na Corda Bamba conta com algumas metáforas e propicia leituras variadas, se afastando de um simples filme documental sobre esta prática milenar - coisa que Lom tentou fazer o governo acreditar para que pudesse filmar. O próprio fato de o diretor ter escolhido crianças órfãs reflete a situação dos uighurs como um todo - povo sem pátria, sem governo próprio, sem pai nem mãe dentro da China. A corda bamba remete à divisão, aos limites e à tentativa de equilíbrio, por parte daquelas pessoas, entre sua própria cultura e as regras locais. Retrata também a falta de liberdade do povo. Em bonitos planos, Lom associa imagens dos pássaros nos fios de alta tensão com os meninos na corda, nas alturas, sem amparo e sem proteção. Driblando as contingências desfavoráveis e a rigidez do governo, Lom fez um bonito filme político debaixo do nariz dos chineses e conseguiu comunicar muito além do costume de andar na corda bamba, coisa que, metaforicamente, ele mesmo parece ter aprendido fazer.
*Visto no 11º Forum.doc.bh.
Filme Citado:
Na Corda Bamba (On a tightrope, 2006/ Petr Lom)