
por Ursula Rösele
Num festival que pretende instigar o espectador de forma a estimular uma relação para além da apatia, a competitiva nacional tem apresentado – para complementar as outras sessões - um conteúdo diversificado de filmes que propõem uma percepção interessante do cinema documental produzido na atualidade em todas suas especificidades. Dessa forma, tem-se rompido determinados paradigmas do filme documentário não só a partir de um tipo de “provocação”, por exemplo, através das sessões do anti-espectador, como também permitido que (talvez num delírio-desejo próprio de quem vos fala) se vislumbre um cinema que não se atenha somente a teorias restritivas de uma arte que – como temos visto – encontra-se muito longe de se esgotar.
Na última quarta-feira, a competitiva nacional apresentou dois curtas um longa-metragem cuja preocupação maior parecia ser a de buscar o discurso, sem que isso conotasse algo negativo no sentido de não possuir tanto apuro visual. Pelo contrário. Há uma proposição de câmera-registro, que traz ao espectador uma idéia que não contém um fim em si mesmo, no qual se possa estabelecer a relação entrevistado/entrevistador/espectador, sempre num terreno onde o urbano parece ser o condutor maior da representação espacial que se pretende ali.
O primeiro deles, Seu Alves, é talvez o aparentemente menos pretensioso, porém, consegue tratar com singeleza e um tipo particular de profundidade a rotina de um trabalhador de Fortaleza que engraxa sapatos e escreve pensamentos nos muros. Pensamentos esses que mostram a singularidade de um homem simples, porém capaz de reflexões filosóficas e de demonstrar uma sabedoria cujo sentido maior está em sua essência e não na busca reflexiva que engloba conhecimento, inteligência e o uso do português correto.
Em seguida, o instigante curta Pare, Olhe, Escute provoca interessante reflexão ao unir em sua ‘narrativa’ questões como o que torna uma “arte” passível de ser denominada como tal, assim como a idéia de afirmação do artista somente a partir da exposição de sua arte e – com pequenos traços já reincidentes no forumdoc com Eduardo Coutinho, por exemplo – a relação que se estabelece com o entrevistado a partir do momento em que a câmera é ligada.
Em Pare, Olhe, Escute, um artista que faz grafites convoca transeuntes a analisar a “arte” (deixando certa liberdade para o entrevistado afirmar ou não os desenhos como produto artístico) dos muros sem deixá-los tomar conhecimento de que os desenhos foram feitos por ele. Interessante também é o simbolismo existente na localização desses muros num trilho de trem aparentemente abandonado. É comum a já conhecida placa que antecede um trilho de trem e dá nome ao filme. Porém, de uma maneira curiosa, o filme trabalha a despreocupação das pessoas em parar, olhar e “escutar” não somente no sentido literal da chegada de um trem, como uma expressão artística que ali fica fadada ao ostracismo.
A câmera é uma presença constante, seja nos olhares em busca de cumplicidade do artista, seja em algumas tentativas desesperadas dos entrevistados em serem vistos, num total desinteresse com a proposta do documentário. O boom ali aparece em determinado momento, o artista rege um ritmo aparentemente próprio de suas ações, ainda que a decupagem possua seus momentos que sugerem ocorrências do acaso que corroboram com a ‘narrativa’, como o trem que não se sabe se passará e cuja passagem acaba por finalizar o filme. Sua arte - com a colaboração do cinema – saiu do anonimato dos tais muros e pareceu ser então, coroada com a passagem do trem que prenuncia o “fim, por enquanto” que fecha parcialmente o filme.
Para finalizar a sessão, o longa Elevado 3.5 abordou de maneira linear (no sentido de não romper com determinados “padrões” do documentário) a rotina de diversas pessoas que moram próximo ao Minhocão de São Paulo. Os depoimentos são separados por intervenções com imagens que sugerem certa continuidade irreversível simbolizada pelo viaduto que (como afirmam os personagens do filme) não pode jamais acabar; e imagens de arquivo que corroboram para uma idéia saudosista presente em todos os depoimentos (realizados em sua maioria por pessoas que acompanharam toda a evolução da região antes e depois do minhocão).
Nessa trajetória percorrida pelos realizadores, encontraram-se personagens curiosos, que – por mérito também de quem os abordou – em sua fala trouxeram momentos muito interessantes, como o do senhor cético e melancólico que afirmou preferir o inferno em sua morte à constância tediosa e politicamente correta do “céu”.
Há uma escolha por planos estáticos e diversos momentos de registros feitos pelas janelas, num esforço contemplativo tanto do urbano que regula de certa forma aquelas vidas, como do retorno recorrente à memória. É um filme que – ainda de uma forma sutil – corrobora para a seqüência proposta no festival, de obras que tragam algum tipo de esforço reflexivo do ser-estar no mundo e do papel do cinema (documental, ficcional, ou que não exista separação entre eles) na contemporaneidade.
*Visto no 11º Forum.doc.bh.
Filmes Citados:
Seu Alves (idem, 2007/Ythallo Rodrigues)
Pare, Olhe, Escute (idem, 2006/Carlos Augusto e Zé)
Elevado 3.5 (idem, 2007/ João Sodré, Maíra Bühler e Paulo Pastorelo)