Os Inconfidentes

por Leonardo Amaral


O melhor de ser brasileiro é ter essa galhardia de sempre achar que estamos cercados de heróis e, logo depois, perceber que o anti-heroísmo é nossa real vocação. Somos todos pícaros, nossa História marcada por conjurações que mais deram errado do que certo. A revolução tupiniquim talvez seja a de conseguirmos olhar para trás e, mesmo com tantos insucessos, sermos capazes de satirizar nossa picardia e notarmos que em nosso sangue correm hemácias, leocócitos e plaquetas macunaímicas.


Vila Rica, terra do mártir Tiradentes e dos conjurados cujo lema fora Libertas quae sera tamen – a liberdade ainda que tardia que se estampa na bandeira do nobre estado das alterosas. Os inconfidentes, todos os heróis que hoje são nomes de rua da Savassi: Alvarenga Peixoto, Cláudio Manoel, Tomás Antônio Gonzaga, Padre Toledo – o pobre Joaquim Silvério dos Reis não mereceu ter seu nome nem em um beco sujo e qualquer, pobre coitado. Os versos são de Cecília Meireles e dos próprios Gonzaga e Cláudio Manoel. A bandeira do heroísmo, do patriotismo, do nacionalismo fanático e besta estaria levantada se o diretor do filme não fosse Joaquim Pedro de Andrade. O que vemos logo a seguir é uma paródia histórica e irônica do movimento da liberdade.


O tom é teatral, por vezes farsesco, a estrutura, ao contrário, traz uma mise en scène refinada, com planos longos cujo intuito seja quase sempre o anti-discurso e a sátira. Há momentos em que os personagens de Tomás Antônio Gonzaga e o Vice-Rei das Minas Gerais caminham de frente para a câmera e discutem a cobrança de impostos na medida em que o movimento abre o plano que teoricamente funcionaria como algo grandioso, mas que na verdade é uma grande ironia às articulações da Inconfidência Mineira. Em outra movimentação da câmera, Tiradentes discursa enquanto ela passa pelos inconfidentes e esses olham diretamente para ela, como se compartilhassem com o espectador o provável insucesso das ações.


Aliás, há uma recorrência à primeira pessoa, quando em vários momentos os personagens olham para a câmera, discursam e inserem o espectador na narrativa, algo que o teórico Jean-Louis Comoli analisa em relação ao documentário, quando existe a forte presença de um “eu” que guia totalmente a ação. No caso de Os Inconfidentes isso é sutil e de extremo sarcasmo. Além disso, há sempre um enquadramento transgressor em que enquanto um dos personagens fala, outros entram para o campo e sobrepõem a imagem do primeiro como se toda a discursividade fosse vazia. Há outros em que a articulação da mise en scène expõe ridiculamente as figuras em quadro, como a do plano da prisão em que estão confinados os inconfidentes, em que cada um deles faz um antidiscurso e até mesmo uma anti-representação.


O anti-heroísmo brasileiro é realçado na figura de Tiradentes – aqui o alferes perde toda a sua ‘aura’ construída durante períodos da história nacional, sendo apresentado com alguém de caráter às vezes duvidoso. Ao final, como reza a história oficial foi enforcado como mártir, mas agora ao som de Aquarela do Brasil, seguido de várias fotos de governantes e políticos brasileiros como Jânio Quadros, Costa e Silva – o contraponto realizado por Joaquim Pedro, que serve como a grande metáfora a uma época em que a liberdade era restrita, Os Inconfidentes nada mais é do que um retrato da inoperância do próprio país dos militares. Os inconfidentes do filme acabam não passando muito de meros nomes de ruas pelas quais transitam várias pessoas que mal sabem que foram e o que fizeram cada um deles. É acima de tudo o estado picaresco que emana no país, como no carrasco que gangorra na corda em que Tiradentes acabara de ser enforcado.

 

*Visto no 11º Forum.doc.bh.


Filmes Citados:

Os Inconfidentes (idem, 1972/Joaquim Pedro de Andrade)

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