
por Gabriel Martins
Tião Reciclado
O documentário de 30 minutos de Vitor Freire conta, através do registro de depoimentos de Tião, parte de sua história como morador de rua e que, atualmente, milita pelo bem dos desabrigados. Filmado de forma convencional, câmera na mão e idéia na cabeça, o documentário é interessante pela figura retratada, mas não ultrapassa um discurso social já visto e ouvido da boca de vários outros personagens urbanos. A câmera se restringe em grande parte ao acompanhamento de seu objeto e uma boa seleção de comentários. Tem bom ritmo (30 minutos que passam bem rápido), não agride, não desagrada, não impressiona. Na sucessão de impossibilidades, o filme traz aí seu maior infortúnio: ser apenas um projeto mediano, pra não dizer básico.
Ô, de casa
Há neste projeto de Clarisse Alvarenga diversas possibilidades de conforto na identificação. Em uma primeira instância, a própria nostalgia inerente a uma história que tem como tema principal crianças brincando de “casinha”. Em uma segundo plano, a própria sutileza da percepção infantil do mundo adulto que se traduz na simplicidade (às vezes “complexada” por alguns dos garotos e garotas do filme) a vontade de produzir algo, de ser responsável, de cuidar, enfim, de crescer.
A estratégia deste singelo documentário é a da “câmera-mosca” que passeia praticamente invisível entre seus filmados, camuflando-se no meio das próprias “casinhas” permitindo enorme espontaneidade por parte das crianças. Em várias vezes a atenção é dada para os detalhes, como mãos em um prato de comida e pés no barro. Esta tentativa de recortar a brincadeira é bem sucedida a partir do ponto em que sentimos na proximidade visual a própria cumplicidade criada naqueles que ali se divertem, brincando de responsabilidade.
Eles inventam regras, fazem planos, e ouvimos no fundo vozes já adultas – entre elas uma garota precocemente mãe - lembrando um passado em que a “casinha”, uma própria metáfora da vida, era apenas uma brincadeira. No saudosismo, Clarisse Alvarenga encerra seu belo documentário, mostrando que a infância é definitivamente uma imagem eternamente presente.
*Visto no 11º Forum.doc.bh.
Filmes Citados:
Tião Reciclado (idem, 2006/Vítor Freire)
Ô de Casa (idem, 2007/Clarisse Alvarenga)